Fundadora do Centro Infantil Boldrini alerta para risco dos agrotóxicos

Silvia Brandalise: durante abertura do seminário sobre agrotóxicos em Santa Cararina – (Foto: Reprodução/MPSC)

IGNÁCIO GARCIA
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Nesta quarta-feira (5), data em que se celebra o Dia Mundial do Meio Ambiente, a médica oncologista pediátrica Silvia Brandalise, pesquisadora e fundadora do hospital que é referência na América Latina no tratamento infantil de doenças onco-hematológicas – o Centro Infantil Boldrini -, em Campinas (SP), alertou para relação do uso do agrotóxico e malformações congênitas.

Durante o Seminário sobre Agrotóxicos nos Alimentos, na Água e na Saúde, do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC), realizado em 25 de maio, a pesquisadora abriu o evento e explanou sobre a associação entre os defensivos agrícolas e o câncer nas crianças, comentou acerca da legislação brasileira e alertou para a necessidade de controle.

Engajada e ativista, em 2018, a presidente do Boldrini também inaugurou o maior centro de pesquisa oncológica infantil da América Latina e tem feito da luta pelo controle dos pesticidas no Brasil uma bandeira.

Em publicação recente no portal do centro infantil, a médica ressalta que é preciso agir agora, para minimizar os impactos da sociedade de hoje sobre as futuras gerações, pois a natureza já manda sinais de alerta.

Exemplo disso são os resultados de pesquisas científicas brasileiras, que relatam a associação entre a exposição de gestantes a agrotóxicos e a malformação congênita dos bebês.

“A maioria dos defeitos fetais está associada a causas genéticas e ambientais, entre elas, a exposição de gestantes ao uso intensivo de agrotóxicos”, revelou estudo brasileiro publicado pelo renomado periódico inglês BMC Pediatrics.

O objetivo desse estudo foi investigar a associação entre a exposição parental aos agrotóxicos e a ocorrência de malformações congênitas. Os resultados mostraram que a malformação fetal está relacionada tanto à exposição das mães quanto dos pais aos agrotóxicos.

“As crianças cujos pais foram expostos aos pesticidas e cujas mães têm baixo nível de educação são mais suscetíveis a malformações congênitas”, concluiu a pesquisa. A pouca escolaridade das mães influencia, neste caso, pois resulta na inadvertência em manusear roupas e utensílios dos maridos, contaminados com agrotóxicos durante o período de trabalho, com a consequente maior exposição.

(Foto: Reprodução/Centro Boldrini)

Mesmo com a variedade de estudos sobre os riscos que os agrotóxicos representam à saúde humana, especialistas alertam que as políticas públicas ainda não mudaram, de acordo com essas evidências. Em alguns casos, as mudanças parecem acontecer na direção oposta.

No Estado de Mato Grosso, decreto de 2013 reduziu as distâncias permitidas para aplicação terrestre de agrotóxicos. Ou seja, hoje é permitido aplicar ainda mais perto de povoados, cidades e cursos d’águas. A distância mínima autorizada era de 200 metros no estado, e em 2013 foi reduzida para 90.

Outras mudanças implementadas no mesmo ano reduziram a transparência sobre o uso das substâncias. O Indea (Instituto de Defesa Agropecuária de Mato Grosso), órgão estadual que antes publicava as substâncias e as quantidades de agrotóxicos utilizadas em cada município, hoje não divulga mais esse monitoramento.

De acordo com Silvia Brandalise, “as evidências científicas disponíveis em nível mundial já apresentam conteúdo suficiente para justificar a necessidade de novos modos de produção, visando minimizar os efeitos nocivos dos agrotóxicos na saúde humana”.

Ela cita, ainda, o exemplo da União Europeia, que já proibiu o uso da atrazina (cuja influência na malformação congênita já foi relatada por estudos brasileiros) e estuda a proibição do glifosato.

“Gostaria de aproveitar essa data, o Dia Mundial do Meio Ambiente, para chamar todos não somente para uma reflexão, mas para ações em defesa da vida. Os efeitos dos agrotóxicos estão contribuindo silenciosamente para o desenvolvimento de enfermidades gravíssimas nas gerações futuras. Precisamos tomar atitudes individuais e coletivas de consumo consciente e conscientização para um esforço conjunto para o bem comum das gerações de agora e do futuro”, finalizou.

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