No dia 11 de outubro, os sanjoanenses perderam um amigo: Joaquim de Campos Simião, ex-prefeito (1993-1996), vereador (1989-1992), médico (1978 em diante) nos deixou, aos 68 anos. Morreu na Santa Casa Dona Carolina Malheiros, sua segunda casa, por mais de 30 anos.
Como político foi um visionário, ao fazer a transição da São João rural, para uma cidade moderna e industrial. Como médico, chegou ao topo da carreira e fez da atividade de professor, um sacerdócio.
A sua especialidade, a neurologia, o levou à neurocirurgia e o tornou um neurocientista que nunca deixou de estudar. Mas ser médico, na antiga Fazenda Cabral, para onde sua família se mudou quando ele tinha apenas oito meses, era menos que um sonho. Era uma improbabilidade. Filho de colonos da fazenda, o menino Joaquim cresceu em meio à natureza, descalço, fazendo arapucas para pegar passarinhos e dividindo com os amigos da fazenda, a sala de aula multiseriada, na Zona Rural, onde foi alfabetizado.
Aos sete anos, já trabalhava na roça com o pai. Aos 10, largou a escola para ajudar a família. O pai havia adquirido cinco alqueires da fazenda e “dono da terra” precisava de toda ajuda.
Aos 15 anos, quando o Brasil estava às voltas com a Ditadura Militar, voltou a estudar, porque entendeu que o País estava mudando, deixando de lado a sua raiz rural, para entrar numa fase urbana. Para entrar neste novo mundo, queria independência econômica e cultural, que para ele só poderia se dar pela educação. Mas não apenas para si. Pensava também em todos que o cercavam. Porém, não podia dar-se ao luxo de somente estudar.
Antes de ir para a escola, era responsável por ordenhar as vacas, de madrugada, e deixar os latões na estrada para o caminhão de leite pegar. Ao voltar da escola, cuidava novamente do gado. Fez isso dos 15 aos 23 anos, até entrar na faculdade.
Sem a “regalia” do transporte escolar, ele andava das proximidades da Fazenda Matão, até o “Instituto de Educação”. Em dias de pressa, quando o gado dava mais trabalho, chegava à escola a cavalo.

A vocação para a Medicina foi descoberta no Colegial (atual Ensino Médio), ao se deparar com a biologia. Foram as células procarióticas, os ribossomos e a genética que o fisgaram. Mas foi um amor pelo contrário: o que o encantava era a dificuldade. As palavras estranhas, o conceito que explicava o ser humano e a natureza, na perspectiva da ciência, desafiavam e ao mesmo tempo descortinaram para o jovem estudante, que havia um mundo novo. Onde ele queria ser parte.
Mas havia um problema: pagar a faculdade. O pai, Abelardo, foi o primeiro a se opor: “Medicina é coisa para ricos”, dizia. Se até hoje esta sentença se mantém verdadeira, imagina como era na São João da década de 1970. Mas o senhor Abelardo não contava com a determinação do seu filho mais velho. Contra todos os prognósticos, ele passou no vestibular e foi cursar a Faculdade de Ciências Médicas Doutor José Antônio Garcia Coutinho, em Pouso Alegre (MG).
Para custear os estudos, tornou-se professor de cursinho. Disciplina: Biologia. A dificuldade enfrentada no colegial deu-lhe não apenas a profissão, mas também o sustento para a faculdade.
Ao chegar a Pouso Alegre, nos primeiros seis meses, foi o trabalho de cozinheiro, na pensão em que morava, que o sustentou. A carreira terminou quando o restaurante recebeu, de repente, trabalhadores do Nordeste, que estavam na cidade construindo um linhão de energia. Na faina de limpar o que dava dos peixes e fritá-los em um tacho de óleo fervente, deixou dentro de um deles um anzol. Um dos peões, ao morder o peixe, ficou com o anzol preso na boca. Ele, aluno do primeiro semestre de Medicina, levou o trabalhador para a faculdade e recebeu ali a sua primeira lição prática. A Gastronomia perdia um chef, mas a primeira lição de Medicina, ele jamais esqueceu.
Em Pouso Alegre, além de dar aula em dois cursinhos pré-vestibulares, doutor Joaquim também começou a lecionar em colégios. Entre 1974 e 1982, mesmo depois da formatura e enquanto fazia a sua residência em neurologia, ele deu aulas para mais de uma geração.
A paixão nunca mais o largou e ele jamais se afastou dos bancos da escola.
Em 2004 concluiu a sua especialização em Docência no Ensino Superior. Por mais de 30 anos, foi professor, na faculdade de Medicina em que se formou. Em 2014, tornou-se professor de Neurologia, no curso de Medicina do Unifae, curso este que apoiou e ajudou a implantar.
Reportagem: Maria Isabel Pereira.
O Político
Já formado, de residência feita, voltou para São João. Entre as consultas, inúmeras cirurgias e o cargo de intensivista da UTI da Santa Casa, achou tempo para entrar na política.
Dormia pouco: cerca de quatro horas por noite. Tinha uma capacidade de trabalho invejável e acompanhar o seu ritmo era para poucos.

Sua primeira experiência política foi em 1988, quando foi eleito vereador, pelo PMDB, atual MDB, para o mandato de 1989-1992.
Durante a vereança vislumbrou a possibilidade de ser prefeito. Mas não encontrou espaço no partido, que já havia se decidido pela candidatura do ex-prefeito Sidney Beraldo.
Decidiu então mudar-se para o PL. À sua volta juntaram-se lideranças de diversos grupos políticos, cuja linha ideológica ia da extrema direita, com egressos da antiga UDN, à esquerda, patrocinada pelo PV. Foram tempos difíceis e de transição. A disputa vencida em 1992 fez com que Dr. Joaquim levasse para a Prefeitura o que já tinha entendido aos 15 anos, agora não para si, mas para a cidade. Ainda que o êxodo rural já fosse uma realidade no Brasil, foi somente em seu governo, entre 1993 e 1996, que São João iniciou a travessia da cidade rural para a moderna e urbana, como a conhecemos hoje.
As críticas foram muitas e nem sempre esquecidas. Sem nenhuma ajuda do governo do Estado ou Federal, contando apenas com os parcos recursos municipais e sem maioria na Câmara, foi uma gestão complicada, de grande turbulência, e que acompanhava o que acontecia no País. O presidente Fernando Collor havia sofrido impeachment no final de 1992. Dr. Joaquim assumiu a prefeitura com os maiores índices inflacionários que o País já viveu. Até que o Plano Real se consolidasse, com o lançamento da nova moeda, um ano e meio depois da sua posse, o então prefeito lidava com uma inflação de até 46,52% ao mês. Qualquer planejamento financeiro e de custo de obras era obra de ficção, neste contexto.
Em meio a tantas mudanças, sem apoio e com pouco dinheiro, dr. Joaquim perseguia, incansável, o ideal de preparar a cidade para o futuro. Seu projeto principal era iniciar obras e ações que poderiam ser continuadas por outros. Foi assim, que nasceu o projeto de construção da Pista de Cooper e o asfalto de uma das vias da Avenida da Mantiqueira, que viria a ser, depois, a avenida Durval Nicolau. A oposição dizia que a obra levava nada a lugar nenhum. Mas o povo, que havia escolhido o lugar para suas caminhadas, logo se apropriou da pista e fez da avenida, um ponto de encontro. A obra indicou o desenvolvimento da cidade naquela direção. E como previram os prefeitos que o sucederam, continuaram não apenas a pista de Cooper, mas também a pavimentação da avenida nos dois lados e sua continuidade até o Bairro Alegre, como a conhecemos hoje.
Também foi em sua gestão que nasceu o Aeroporto Municipal, fazendo a primeira pista de pouso. Dr. Joaquim acreditava que o futuro traria novas oportunidades de emprego e desenvolvimento, a partir dali. Nos anos seguintes, o aeroporto foi ampliado, por seus sucessores e hoje, a cidade conta com três indústrias de aeronaves e um curso de graduação, da Unesp, de Engenharia Aeronáutica. Recentemente, a Câmara aprovou projeto de Lei que dá o seu nome ao Aeroporto. Um reconhecimento pelo que fez.
Na área social e cultural, a cidade teve um grande incremento durante a sua gestão. Ele era alegre e os eventos em sua gestão marcaram época. Ensaiou até a volta dos Festivais de Música Popular, trazendo a Rede Record para promover um Festival Regional de Música e levar o nome de São João ao País. A final, na sede do Palmeiras, deu o prêmio para o jovem violeiro Vinícius Alves.
Foi também dele a ideia de fazer na Praça Joaquim José, o Fonteatro Emílio Caslini, palco de dança e de apresentações artísticas, presente na vida sanjoanense até hoje. Ainda que tenha criado fama de festeiro, em função dos eventos, ele mesmo não era dado a estas regalias. Gostava de gente, de estar com as pessoas. Gostava de ver a alegria do povo, sobretudo os mais simples. Mas não bebia uma gota de álcool. E tinha horror a cigarro. Seu compromisso era com o trabalho, com a família e os pacientes.
Na Prefeitura, chegava cedo e saía tarde. Mas independente da hora em que fechava o gabinete, nunca deixou de passar na Santa Casa, antes de ir para casa. De manhã, ia primeiro ao hospital, fazia cirurgia, às vezes às 5h da manhã, e depois seguia para a Prefeitura.
Em sua obsessão por fazer de São João da Boa Vista uma cidade moderna, abriu ruas no Distrito Industrial, trazendo para o local as primeiras indústrias. O Distrito foi reformado e ampliado nas gestões que o sucederam, mas o caminho estava traçado.
O desenvolvimento da cidade é assim: feito pela soma das pessoas que passaram por ela. Degrau por degrau. São sementes plantadas que germinam na medida em que aqueles que vêm depois se apropriam das iniciativas.
Como homem público, o doutor Joaquim plantou sementes que já germinaram e continuam a florescer. Outras estão embrionárias, esperando um lugar no futuro, como a represa no Rio Jaguari, na entrada da cidade, talvez um de seus projetos mais queridos e que não viveu para vê-lo se realizar.
Enquanto filho, irmão, marido – uma vida inteira com a esposa Haládia, que conheceu ainda na faculdade – e pai, deixou o exemplo de chefe da família. Suas filhas, a publicitária Adriana, a endocrinologista Haládia e a oftalmologista Haldria eram o seu orgulho e não cansava de contar os seus feitos a quem quer que fosse. Suas vitórias pessoais eram dele também.
Como médico, deixou entre os colegas, enfermeiros e alunos, o exemplo concreto da humanização no exercício da Medicina. Independente do cargo ou da posição social de quem o procurava, o que todos encontravam nele eram a mesma paciência e generosidade. Tratava a todos, pagantes e não pagantes, amigos e inimigos, funcionários graduados ou mais simples, com a mesma atenção.
No velório, os sentimentos de tristeza e consternação se confundiam com os de amizade, de respeito, de carinho, de uma cidade que se despedia de um homem que, no fundo, não deixará de existir.
Seu legado de respeito ao próximo, amor, humildade, companheirismo e integridade são exemplos que frutificam nos corações de todos aqueles que ,como eu, tiveram o privilégio de conhecer e conviver, ainda que por pouco tempo, com este grande ser humano. (M.I.P.)





Tive a oportunidade de conhecer o Dr Joaquim através de seus familiares e pude ouvir algumas dessas histórias! Um homem determinado e muito perseverante, ajudou muitos não só no âmbito da Medicina mas em seu meio familiar ! Com certeza transformou a vida de muitos. Foi um prazer conhecê lo e obrigada pela matéria!