No inicio do mês, o incêndio que destruiu o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, causou comoção até no exterior, onde ganhou manchete em diversos jornais.
Em São João da Boa Vista, o arquiteto e historiador Antônio Carlos Rodrigues Lorette, que há 40 anos atua na área de museus, também lamentou o ocorrido.
“Eu tive uma professora de especialização em museologia, a Cristina Bruno, da USP, que falava muito sobre esse museu e tinha uma preocupação com a educação patrimonial, a educação para o museu, mantendo um trabalho, até hoje muito importante, com as crianças”, lembrou Lorette.
E citou um episódio curioso que a professora Cristina lhe contou – de que certa vez, ao entrar neste museu, na sala das múmias do Egito, encontrou uma menina deitada na mesma posição, de braços cruzados e silenciosa.
“Assustada com aquilo, perguntou o que estava acontecendo e a criança respondeu ‘Eu quero saber como é ficar tanto tempo deitado desse jeito’”, narrou Lorette, entre risos.
Para ele, esse fato ilustra a importância que um museu tem, não só na questão de antiguidade ou dos objetos que o compõem, mas no de promover o reconhecimento do ser humano com sua própria identidade e para a formação das pessoas.
Em São João da Boa Vista existem o Museu de Arte Sacra da Diocese, o Museu Histórico e Pedagógico, o Arquivo Municipal Matildes Lopes Salomão e Lorette lembra que há o Museu da Educação Dirce Carbonara, na E.E. Cel. Joaquim José.
“Dirce Carbonara foi uma servente do grupo escolar e tudo o que lhe pediam ‘guarda, dona Dirce, guarda o material’, ela ía pondo no porão, não importava o que fosse. Pegou tudo o que era de pedagogia, das merendas e guardou lá. De repente, foi uma surpresa, porque ela tinha guardado justamente a história do grupo escolar, tanto do prédio como da vivência dos alunos”, ressaltou Lorette.

Quanto a conservação deste, o arquiteto-historiador argumentou que o museu nunca foi inserido como algo essencial para o prédio.
“Eram duas salas – uma recriando as salas antigas e a outra com o acervo. De repente ficou numa sala só, jogou-se tudo junto e o pior – numa sala com problema de infiltração”, pontuou, recordando que até pouco tempo, era essa também a situação do Arquivo Histórico.
Lorette observa que, de maneira geral, o brasileiro parece olhar seus museus como ‘depósitos’, coisas mortas que não vai usar mais e, para não jogar fora ou ficar com remorso, deixa ali.
“Eu estou num museu que valoriza essas questões, onde a instituição é a diocese. O Museu de Arte Sacra foi criado em 1987 e a gente está sempre preocupado com isso, mas também já passamos dificuldades, como a de procurar uma sede – já estivemos em cima da casa paroquial, que não tinha acessibilidade; na parte de trás da Capela Nossa Senhora Aparecida, na Cripta da Catedral e finalmente, no atual endereço, praça Roque Fiori, nº 80, junto ao Bispado”, recordou.
Lorete enfatizou que neste Museu foi colocado um esquema de segurança para não correr risco de incêndio, mas nada tão elaborado.
“Temos uma entrada só, não há uma saída de emergência. Isso é complicado, porque é um prédio antigo, tombado, mas temos que repensar nisso e criar uma outra saída, como no Theatro, tanto para salvar quem está dentro, como também salvar o acervo. E ter extintor suficiente, além de treinamento, pois não adianta ter extintor se não souber utilizá-lo”, ponderou o arquiteto, completando que o fogo, a água e insetos xilófagos, que comem madeira e papel são os grandes problemas dos museus.
Outro ponto que o arquiteto mencionou são os furtos e roubos, que também precisam de esquema de proteção.
“Os nossos museus têm sérios problemas nessa área, mas eu acho que estão em melhores condições do que muitos museus da região, que eu vejo de forma muito precária”, frisou ele.
Quanto ao Museu Histórico e Pedagógico, fundado em 1970, este tem os mesmos problemas – uma única entrada e até existe uma saída, na rua Benedito Araujo, mas as escadas dificultam o acesso.
“A acessibilidade deste Museu é mais difícil que a do Museu de Arte Sacra, onde temos a rampa de madeira, para assentar e a pessoa entra; estamos intencionados em fazer um acordo com o terreno na lateral para poder abrir um corredor ali e possibilitar a saída de forma mais rápida. Também lá tem muita madeira, de assoalho e teto, coisa que no de Arte Sacra, nós resolvemos colocando um forro de gesso abaixo do assoalho. Em caso de incêndio em cima, dá tempo de não destruir embaixo, esse gesso acaba impedindo. E no Museu Histórico é tudo madeira. A nossa intenção era isolar a parte de baixo com laje de concreto e o assoalho por cima. Isso evitaria o cupim de terra e diminuiria a chance do fogo se alastrar. Além disso, criar um sistema para o forro, por conta dos problema de goteira que aquele museu tem”, justificou Lorette.
Por Daniela Prado
Cultura de frequentar museus precisa ser incutida nas pessoas
Um detalhe que Lorette apontou é na questão de frequentar museus, independente de pesquisas escolares, mas por apreciar a história ali contida.
“Eu trabalhei em vários museus, como os de Campinas – o museu da cidade eu que montei, o museu do Campos Salles; mas Campinas não dá valor aos seus museus, o campineiro valoriza os museus de São Paulo. E quando alguém os leva aos museus locais, eles ficam encantados. Na minha opinião, as pessoas não valorizam seus museus porque não sabem que eles ‘existem’. E o passado é muito sedutor, tem um certo mistério provocativo, que você quer desvendar”, Lorette argumentou.
Na visão dele, o que falta são as instituições responsáveis promoverem essa mudança.
“Eu vejo aqui, as crianças trazerem os pais para verem o museu e os pais vêm com desculpas ‘ah, ela falou que quer entrar aqui, onde já se viu?, como se o ambiente fosse chato ou insalubre, com cheiro de mofo. A criança quer trazer os pais porque achou esse mundo maravilhoso. Para mim, essa é uma construção cultural terrível. Cabe às instituições, detentores ou responsáveis por esses museus promoverem essa mudança de comportamento, investindo mais, fazendo mais trabalhos educacionais, não só para as crianças, mas para os mais velhos, que já têm essas ideias equivocadas. Por isso é que eu acho que os museus são o espelho da cultura nacional e a cidade toda é um grande museu. Museu não é só o que está dentro do prédio, mas é todo o patrimônio da cidade, como o nosso cemitério, que é um museu a céu aberto – tem objetos, tem passado, tem previsões de futuro e é ali que você vai entender a sua cidade, suas relações, vai ‘ler’ a sua cidade”, finalizou o arquiteto. (D.P.)




