
Na última semana, a destruição de uma pintura no interior da Igreja de Santa Luzia, Paróquia de São Roque, em São José do Rio Pardo, causou polêmica e discussão entre fieis naquele município.
A obra, feita há mais de uma década pelo artista Arioswaldo Rizzo de Andrade, recobria toda a parede da capela mor. Ao ficar sabendo da destruição, o artista publicou no seu perfil do facebook sua indignação e tristeza, o que tornou público o assunto e revoltou muitas pessoas.
A pintura de Arioswaldo Rizzo era inspirada na arte bizantina e muito bem composta e harmônica com as proporções da igreja. Ao centro da composição ficava o Cristo Pantocrator, ladeado por dez santas virgens, incluindo Santa Luzia.
O mural foi feito na técnica do filetado a ouro, tendo as figuras 2 metros de altura. Do lado direito do templo, foi pintado um ícone de Madona com o Menino, inspirado na arte cristã primitiva, e na capela do Santíssimo, uma imagem do Cordeiro, que está preservada até o momento. Nos fundos da igreja, dois anjos segurando um brasão que representa os quatro evangelistas, que também foi apagado.
De acordo com informações, o pároco atual do São Roque teria apagado as imagens sob alegação de que as paredes sofriam com infiltrações.
O MUNICIPIO conversou com o arquiteto e historiador Antonio Carlos Lorette, especialista em arte sacra e curador do museu diocesano, o qual demonstrou preocupação com o ato que, segundo ele, se repete na região.
Lorette cita alguns exemplos muito parecidos com o caso de São José, como a Igreja Matriz de Botelhos, que foi completamente desmontada também com a desculpa de infiltrações pelo pároco local. “As pinturas foram todas eliminadas e em seu lugar foi construída uma igreja ‘moderna’ totalmente desproporcional com a praça central da cidade”, conta.
Hoje, revela Lorette, a população de Botelhos se arrepende de ter apoiado a ação do padre.
Outro exemplo mencionado pelo historiador é a Matriz de Santo Antonio do Jardim. Por lá, diz Lorette, a infiltração também foi a desculpa usada pelo pároco para a demolição completa da igreja. “Lamentava-se durante a demolição a descoberta de pinturas decorativas nas paredes internas, além da dificuldade de demolição de estruturas que diziam comprometidas, como a fachada e a torre”.
Em São João da Boa Vista caso semelhante também ocorreu, diz Lorette. Na cidade o problema foi na reforma da Capela de Santa Terezinha, na Vila Conceição. De acordo com o historiador, as últimas pinturas decorativas do pintor Tonico Martins foram apagadas.
Para Lorette, estas situações desrespeitam a Igreja, composta pelo povo de Deus. “A arte sacra não é produzida apenas pelo líder da Igreja, mas é feita patrocinada e conservada pelos fieis. No mínimo, eles devem ser consultados”, aponta o arquiteto, que ainda pede que a Igreja trabalhe em equipe e cita um ensinamento de Cristo: “não estou aqui para ser servido, mas para servir”.



