O caso da pequena Emanuelly Diniz Carneiro, de apenas 1 ano e 3 meses, que faleceu no dia 23 de dezembro após uma TV de 29 polegadas, modelo de tubo antigo, cair em sua cabeça, acende a discussão sobre os perigos que as crianças podem enfrentar dentro das suas próprias casas e as possíveis ações de prevenção.
No caso de Emanuelly, que morava com a família no bairro do Pratinha em São João da Boa Vista, ela brincava na sala, ao lado dos três irmãos, no momento do acidente. Uma TV caiu do rack (estante), que já estava apresentando problemas, e atingiu a cabeça de menina. Ela foi levada à UPA (Unidade de Pronto Atendimento), mas não resistiu aos ferimentos e morreu.
A tragédia envolvendo a bebê chocou São João da Boa Vista e preocupou muitos pais pela cidade.
E o acidente de Emanuelly não foi um caso isolado, revela a médica pediatra Josiane Trafane.
Segundo ela, a cada ano que passa, tem se observado um aumento substancial de acidentes envolvendo crianças das mais variadas idades em São João. “A cada dia é mais frequente crianças na emergência do hospital, vítimas de acidentes. Posso afirmar que em todo plantão que faço, chega uma criança com história de queda, seja da cama, do carrinho e, em crianças maiores, dos famosos ‘pula-pula’ ou cama elástica”.
A médica ainda explica que cada faixa etária tem maior incidência de determinados acidentes domésticos. No primeiro ano de vida, por exemplo, as quedas (carrinho, cama box, trocador), afogamentos, queimaduras (banheiras e água do banho quente), intoxicações por medicações ministradas erradamente e sufocamentos (travesseiros, protetores de berço, hábito do bebê dormir na cama com os pais) sãos mais comuns.
Já na faixa etária de 1 a 3 anos, pela total incapacidade de reconhecer riscos e habilidade motora insuficiente, Josiane Trafane ressalta que há um aumento do número de acidentes por lesão física. “Há, nessa idade, maior risco de quedas da própria altura e das mais variadas alturas, queimaduras no forno e fogão, afogamentos (banheira, balde e piscina), intoxicações (produtos de uso doméstico, medicamentos, plantas), choques elétricos, aspiração e ingestão de corpos estranhos, picadas venenosas e mordeduras por animais domésticos”, detalha.
Dos 3 aos 7 anos é a fase em que a criança se sente mais segura e amplia sua capacidade de ir e vir, diminuindo o controle dos pais. “A criança se movimenta mais rápido e tem pouca percepção de previsão dos riscos. Acrescento também a grande curiosidade, comum nessa faixa etária, e o pensamento ‘mágico’, que faz com que essas crianças tenham a impressão que, se caírem, não se machucarão, como os personagens das histórias que assistem”, explica. Portanto, nessa fase, a médica diz que são frequentes os atropelamentos e colisões, afogamentos, intoxicações por ingestão de substâncias (medicamentos, álcool, produtos de uso na limpeza da casa), mordeduras e ferimentos com armas de fogo e objetos cortantes.
As crianças de 7 a 10 anos, embora a escola já tenha iniciado orientação quanto à segurança, ainda não têm a capacidade do pensamento organizado, conta a pediatra. “Portanto, sem a supervisão de um adulto, acidentes tais como quedas, atropelamentos e traumatismos dentários são frequentes”.
Josiane Trafane reforça que em qualquer idade a criança é muito suscetível a acidentes, por isso a supervisão dos pais ou responsáveis é primordial.
NOÇÃO DO PERIGO
E CONDUTA
Questionada se as crianças entendem que algo é errado e se os pais devem tentar mostrar a elas esses perigos, a pediatra reforça que sim. “As crianças nas mais variadas idades devem ser monitoradas e ensinadas constantemente. Aquela frase que sempre escuto ‘meu filho é teimoso’ precisa ser banida, pois é na repetição que a criança aprende. Então, cabe aos pais terem paciência e estarem presentes”, aponta.
Sobre deixar a criança se machucar para que ela aprenda o que é errado, algo praticado por muitos pais, a médica repudia. “Com certeza não é o melhor a se fazer. A criança precisa aprender ao longo do seu crescimento, com experiências positivas e não nas negativas propositais”.
QUEDAS
E INTOXICAÇÃO
As quedas estão entre os mais comuns acidentes domésticos, confirma a pediatra Josiane Trafane.
E no caso dos bebês, o cuidado deve ser ainda maior. “Mesmo que não sejam fatais, é impossível quantificar o número de neurônios destruídos com o trauma. Sempre levamos em conta a altura de onde a criança caiu. Se essa altura é maior que a própria estatura da criança, o cuidado deve ser maior”, alerta.
Já no caso de intoxicações, a médica conta que podem acontecer das mais diversas maneiras, com medicamentos e substâncias de uso doméstico. Mas Josiane faz questão de enfatizar o querosene e outros produtos químicos guardados em garrafas pet, que confundem a criança. “Além disso, plantas como a ‘Comigo Ninguém Pode’ também são frequentes causadoras de intoxicações, assim como os derivados da nafazolina e sprays nasais de uso adulto que acidentalmente são utilizados nas crianças”.
PEDIATRA AFIRMA QUE MANTER A CASA SEGURA É DEVER DE TODOS QUE LÁ RESIDEM
Josiane Trafane, quando perguntada sobre possíveis ações preventivas dos acidentes domésticos, é direta. “Todos na casa têm o dever de mantê-la segura. Antes de construir uma piscina, já no orçamento deve-se incluir o gasto com a cerca de proteção. Essa cerca só poderá ser retirada quando se tiver a certeza de que a criança poderá sair sozinha da piscina, mesmo de roupa”, exemplifica.
Sobre os produtos de limpeza e medicamentos, eles devem ser colocados fora do alcance das crianças. Assim, como as bebidas alcoólicas não podem estar expostas nos chamados ‘barzinhos’ na sala de visita, ensina a médica.
“Não carreguem seus filhos sem cinto de segurança nos bebês conforto, nem que seja para ir do quarto para a cozinha. E não deixem seus filhos dormirem em camas. Se não forem fatais, esses atos inconsequentes poderão causar danos neurológicos irreversíveis”.




