Por Ana Laura Moretto
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Durante anos, pessoas com sintomas de hanseníase podem ter convivido com a doença sem saber. Formigamentos, dormência, dores e alterações nos nervos podem ser confundidos com outros problemas de saúde e sem o diagnóstico correto, o tratamento adequado não começa. Em São João da Boa Vista, um trabalho de busca ativa realizada pela rede municipal tem mudado esse cenário.

Até segunda-feira (21), as unidades de saúde contabilizavam 182 registros relacionados à hanseníase, sendo 178 pessoas em tratamento, três altas e uma transferência. O número de diagnósticos vem crescendo mês a mês, e segundo a Vigilância Epidemiológica, isso não significa que a doença tenha surgido agora ou que o município esteja diante de um surto.
“A gente tem feito, junto ao Departamento de Saúde e à Vigilância Epidemiológica, uma busca ativa de novos casos de hanseníase e tem encontrado. Nossos números têm crescido a cada mês, e isso é muito positivo, porque esses casos não são de hoje. Ao invés de a gente ficar preocupado, não é uma questão de surto de hanseníase. A hanseníase sempre esteve entre nós, ela só não era encontrada”, explicou Ludmilla Borato Barros Zan, coordenadora do Departamento de Vigilância Epidemiológica.
Segundo ela, a identificação permite que essas pessoas tenham acesso ao tratamento e possam evitar consequências mais graves. “São pessoas tendo a oportunidade de saber o que têm, de se tratar e sendo diagnosticadas o quanto antes, ficarem livres de deformidades e terem uma qualidade de vida no futuro muito melhor”, afirmou
A hanseníase é considerada uma doença negligenciada justamente pela dificuldade histórica de identificar todos os casos. Para ampliar essa identificação, a rede municipal vem trabalhando na sensibilização e capacitação dos profissionais, além da busca ativa.
“O Brasil inteiro tem hanseníase. O que falta é uma rede de assistência sensibilizada para encontrar os casos. Para encontrar os casos, precisa busca ativa, precisa exame clínico apurado”, explicou.
Durante as consultas, os profissionais também passaram a utilizar um questionário para investigar possíveis sinais da doença. Entre as perguntas estão a presença de dormência nas mãos ou nos pés, formigamentos, áreas adormecidas na pele, câimbras, sensação de picadas ou agulhadas, dor nos nervos, manchas, caroços e inchaços. O formulário também verifica perda de força nas mãos e nos pés e histórico de hanseníase na família.
PRIMEIROS SINAIS
A médica Fátima Livorato, do Departamento Municipal de Saúde, explica que a hanseníase pode começar pelos nervos antes mesmo de aparecerem alterações mais evidentes na pele.
“A bactéria vai se alojar nos nervos dos braços, das pernas e da face. Então os sintomas inicialmente estão relacionados a problemas nos nervos, como formigamento, câimbras, dores nos nervos. Às vezes a pessoa sente uma área dormente no corpo e depois, progressivamente, podem aparecer manchas”, disse.
Em estágios mais avançados, a doença pode provocar perda de força nos braços e nas pernas. Por isso, o diagnóstico precoce é importante para evitar incapacidades.
A doença tem cura e o tratamento é oferecido gratuitamente pelo SUS, com antibióticos específicos. Conforme o caso, o tratamento pode durar seis ou 12 meses. A transmissão ocorre principalmente pelo convívio próximo e prolongado, especialmente no ambiente familiar, com uma pessoa que ainda não iniciou o tratamento. Não é necessário isolamento.
Mais do que provocar preocupação, a orientação dos profissionais de saúde é que a população tenha informação para reconhecer os sinais e saber que a hanseníase tem tratamento, tem cura e é atendida pelo SUS.




