Por Marcel Gregório
[email protected]
O escritor pratense Fernando Dezena, 65, lançará o livro de contos “Dias de axilas e outros abismos”, dia 5 de setembro, às 19h, na Academia de Letras, localizada à praça Rui Barbosa, 41, na Estação das Artes, em São João da Boa Vista. A entrada será gratuita.
Com 98 páginas, o livro publicado pela editora Patuá é qualificado com um título incomum. Dezena confirma o rótulo e reforça que o escreveu porque é adepto de títulos que provoquem algum ‘estranhamento’ no leitor. “Axilas é uma palavra muito corporal, muito próxima, quase incômoda. E abismos leva para outra direção, para aquilo que é profundo, psicológico, às vezes inexplicável. O livro vive um pouco desse contraste. Há o corpo cotidiano, o suor, o ônibus, o metrô, o trabalho, o sexo, a rua; e há os abismos que cada personagem carrega sem que os outros necessariamente percebam”, ilustrou.

No site da editora, o livro está sendo vendido por R$ 60. Segundo o acadêmico, a obra reúne personagens atravessados pelo cotidiano, pelo desejo, pela memória e pelas pequenas e grandes rupturas capazes de modificar uma existência.
Nascido em Águas da Prata, Dezena é escritor e membro da Academia de Letras de São João, e ainda diretor da União Brasileira de Escritores (UBE). Ele mantém uma ligação familiar especial com a instituição sanjoanense, pois sua mãe, Luiza Dezena da Silva, também integrou a Academia antes dele. “Portanto, realizar ali o lançamento não é apenas apresentar um novo livro: é voltar a um espaço que faz parte da minha própria história”, disse.
ELABORAÇÃO
Perguntado sobre o que representa dar ênfase ao corpo, o autor do livro ressalta a naturalidade durante o processo de criação. “Foi acontecendo durante a escrita e, em determinado momento, percebi que era uma presença muito forte. O corpo deseja, envelhece, sente fome, trabalha, transpira, adoece, sofre violência. Não somos apenas aquilo que pensamos. Somos também um corpo andando pela cidade, esperando um ônibus, desejando alguém, sentindo medo ou cansaço. Talvez por isso ‘axilas’ tenha acabado chegando ao próprio título”, detalhou.
Acerca de seus contos parecerem vindos de cenas comuns, o escritor revelou que procura analisar o comportamento humano. “Frequentemente começa com uma cena que insiste. Uma pessoa no metrô, uma conversa ouvida, alguém sentado num bar, um gesto que parece sem importância. Não necessariamente sei de imediato o que aquilo significa. A história vai se formando em torno dessa imagem. Procuro não começar por uma tese. Primeiro vêm as pessoas e a situação; depois descubro o que existe por baixo delas”, contou.
Segundo ele, os ambientes urbanos e os personagens comuns do cotidiano são mais interessantes do que os chamados acontecimentos extraordinários. “Muito mais. O extraordinário me interessa quando nasce do cotidiano. Uma pessoa comum pode carregar um drama enorme enquanto, para quem passa ao lado, nada está acontecendo. É esse contraste que gosto de observar. Há histórias que acontecem em transportes, no trabalho, em casas, ruas, encontros familiares. Lugares que conhecemos. O abismo não precisa estar longe. Às vezes está sentado ao nosso lado”, afirmou.
Além de escritor, Dezena também desenvolve um trabalho institucional como diretor na UBE, o que permite uma ampliação da convivência com escritores, leitores, incluindo discussões sobre literatura. “Mas o lançamento tem algo que nenhuma função institucional substitui: é o momento em que um trabalho feito em silêncio deixa de pertencer apenas ao autor e passa definitivamente para as mãos dos leitores”, concluiu o acadêmico.




