Maio impulsiona casamentos e resgata tradição das noivas

Por Ana Paula Fortes
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Flores delicadas, vestidos sonhados desde a juventude, enxovais cuidadosamente guardados em baús e cerimônias pensadas nos mínimos detalhes. Mesmo com o passar das décadas e as transformações nas celebrações, maio continua carregando um simbolismo especial para os casais brasileiros. Conhecido como o ‘mês das noivas’, ele voltou a ganhar força em 2025, registrando aumento de 25% no número de casamentos em relação ao ano anterior, segundo dados da plataforma iCasei, que projeta quase 10 mil uniões realizadas no período em todo o País.

Quebrando padrões: Mazé se casou em 1975, e o lilás tomou conta da cerimônia (Acervo Pessoal)

A tradição de casar em maio nasceu da influência europeia e religiosa, associando o mês à figura de Maria, mãe de Jesus, símbolo de amor e pureza para a Igreja Católica. No Brasil, a data também acabou ganhando um charme próprio devido ao clima mais ameno o que dá às cerimônias um tom mais elegante além do romantismo típico do outono que ajudaram a eternizar maio no imaginário popular.

Mas muito além das estatísticas e tendências modernas, são as histórias guardadas na memória que dão sentido à tradição.

A professora aposentada Maria José Mourão, se casou em 8 de maio de 1975. E, ao lembrar daquele período, sua voz parece revisitar um tempo em que os preparativos do casamento eram feitos devagar, com carinho e significado.

“Escolhi maio porque acho um mês muito bonito, além de ser o mês onde se comemora o Dia das Mães, sempre gostei muito dele”, contou.

Naquela época, o casamento começava a ser preparado muito antes da cerimônia. O enxoval era quase um ritual familiar. As mães compravam peças aos poucos, guardando tudo com zelo para o futuro das filhas.

Mazé lembra com carinho do grande baú da família, onde a mãe guardava as compras feitas nas antigas lojas da cidade, como a Galeria das Noivas, Casa Tupi e a Pernambucanas. Ali estavam roupas de cama, toalhas de banho, panos de prato e peças bordadas à mão, muitas feitas por ela mesma.

“Eu fazia curso de bordado e bordei nossas iniciais nas peças”, recordou.

Os casamentos dos anos 1970 carregavam tradições que hoje soam quase poéticas. O chá de cozinha como era conhecida a atual despedida de solteiras reunia todas as amigas e mulheres da família. Todos participavam intensamente da organização e cada detalhe tinha valor sentimental.

Mas Mazé também queria imprimir personalidade à cerimônia. Apaixonada pela cor lilás, surpreendeu a família ao anunciar que gostaria de se casar usando a tonalidade.

“Minha mãe ficou surpresa e pediu para eu conversar com meu pai. Quando falei, ele pensou e disse: ‘se é a cor que você gosta, case com ela’.”

E assim foi. O lilás tomou conta da cerimônia. Do vestido da noiva às daminhas, a Igreja do Perpétuo Socorro até à Esportiva onde foi comemorada a união. Um toque delicado de originalidade numa época em que as noivas quase sempre escolhiam o branco tradicional.

Outra decisão fora do comum foi casar numa quinta-feira. “Escolhi só porque era diferente”, disse aos risos.

Ela também sonhava entrar na igreja ao entardecer, exatamente no crepúsculo. O último horário disponível era às 17h30. Mas o destino acabou colaborando com o plano romântico. “Atrasei e entrei na igreja às 18h em ponto”.

E o que já parecia emocionante ganhou ainda mais encanto graças a uma surpresa preparada pela família. Mazé sabia que haveria órgão na cerimônia, mas ao abrir as portas da igreja descobriu uma formação especial, com saxofone e violino acompanhando sua entrada. “Tudo arranjado pelo meu pai, o saudoso Maestro Mourão. Foi emocionante”.

A celebração continuou em tom afetivo durante a festa. Os músicos do pai ficaram responsáveis pela parte musical da noite, transformando o casamento em um encontro de família, música e memórias.

Cinco décadas depois, muita coisa mudou. Hoje, os casamentos acompanham tendências das redes sociais, cerimônias ao ar livre, e celebrações personalizadas. Ainda assim, histórias como a de Mazé mostram que a essência permanece a mesma o desejo de ter seus sonhos de menina realizados e transformados em lindas lembranças.

E talvez seja essa capacidade de reunir tradição, sonho e afeto em histórias que atravessam gerações que mantém o mês de maio tão especial.

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