O protagonismo feminino sob a sombra da violência

Por Ana Paula Fortes
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Em 2026, o Dia Internacional da Mulher é celebrado sob o peso de uma realidade ambígua, marcada pelo avanço e pela visibilidade de mulheres que rompem barreiras, mas também pela permanência alarmante da violência de gênero que ainda atravessa o cotidiano de tantas brasileiras. Se por um lado elas ocuparam espaços inéditos e brilharam em diferentes áreas no último ano, por outro, casos de feminicídio seguem lembrando que a luta por segurança e dignidade ainda é urgente.

MULHERES QUE FIZERAM HISTÓRIA

O último ano foi de protagonismo feminino em diversas frentes. No esporte, Rebeca Andrade consolidou-se como a maior medalhista olímpica da história do Brasil, reafirmando seu nome entre as melhores ginastas do mundo e tornando-se símbolo de superação e excelência.

Mulheres em destaque: elas romperam barreiras, ocuparam espaços e transformaram realidades (Fotos: Reprodução/Redes Sociais)

No setor financeiro, Tarciana Medeiros, presidente do Banco do Brasil, pelo segundo ano consecutivo, foi a única brasileira na lista da Forbes das ‘100 Mulheres Mais Poderosas’, representando um marco na liderança feminina em uma das maiores instituições do país.

Na ciência, a pesquisadora Tatiana Sampaio que lidera as pesquisas sobre a polilaminina, substância experimental que ganhou repercussão nacional como possível tratamento para lesão medular.

Já na política, a deputada federal Erika Hilton foi eleita ‘Mulher do Ano’ pela Marie Claire, destacando-se pela defesa dos direitos humanos e pela representatividade.

São histórias que inspiram, rompem barreiras e ampliam horizontes para meninas e mulheres em todo o país.

POR OUTRO LADO

Ainda sobre as mulheres, outro recorde aconteceu em 2025, segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública: quatro mulheres foram mortas por dia. Em São João da Boa Vista, não foi diferente. Apenas neste início de 2026 dois casos de feminicídio foram registrados em menos de 40 dias.

No dia 4 de janeiro, Jéssica Cândido Flora, 34, foi morta com seis golpes de faca pelo companheiro, Jean Carlos Fermino, 31, que está preso.

Em 6 de fevereiro, Patrícia de Fátima Oliveira, 47, foi assassinada com mais de 30 facadas pelo marido, Sinésio Fostinoni Júnior, 45, que tirou a própria vida logo após o crime.

Os dois casos reforçam um dado alarmante de que a violência doméstica não escolhe idade, classe social ou endereço. Ela atravessa lares e silencia histórias.

Para Irene Martins Alves do Carmo Simioni, presidente do Grupo Terapêutico ‘Com Elas’, o 8 de março deve ir além da comemoração. “Na minha visão, o Dia Internacional da Mulher deve ser um dia de reflexão e mobilização. Celebrar é importante, mas ainda precisamos garantir segurança, respeito e dignidade para todas”, opinou.

Feminicídio: sanjoanenses que tiveram suas histórias interrompidas pela violência

Ela reconhece que há conquistas a serem comemoradas, mas alerta para a necessidade de consciência e ação. “Existem conquistas, mas o momento pede consciência e ação. Os índices de violência mostram que ainda precisamos avançar muito, inclusive em cidades do interior como a nossa”, disse.

VIOLÊNCIA SILENCIOSA

Segundo Irene, o grupo ‘Com Elas’ percebe aumento na procura por apoio, especialmente em casos de violência psicológica e emocional. “Principalmente em situações que não são identificadas de imediato. As violências mais relatadas são psicológica, humilhações constantes, controle financeiro, ameaças e, em alguns casos, agressões físicas”, contou.

Ela explica que muitas mulheres têm dificuldade em reconhecer um relacionamento abusivo. “A violência geralmente começa de forma silenciosa, com manipulação e desvalorização, o que confunde e fragiliza emocionalmente”, pontuou.

Entre os fatores que mantêm mulheres em situações de violência estão dependência financeira, medo, filhos, culpa, vergonha e ausência de rede de apoio estruturada.

As consequências emocionais são profundas, como baixa autoestima, ansiedade, medo constante, sensação de incapacidade e isolamento. Ainda assim, Irene reforça que é possível reconstruir a própria história. “Através de acolhimento humanizado, acompanhamento psicológico, apoio jurídico e fortalecimento da autonomia emocional e financeira”, falou.

Para Irene, as políticas públicas ainda precisam avançar, especialmente na ampliação dos serviços, na agilidade das medidas protetivas e na prevenção por meio da educação.

“Transformando fala em prática, fortalecendo projetos sociais, cobrando políticas eficazes e apoiando mulheres de forma concreta.”, finalizou.

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