Onça-parda é capturada em imóvel no Sol Nascente

Por Bruno Manson
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Uma onça-parda (Puma concolor) foi capturada na segunda-feira (13) em uma propriedade localizada no Jardim Sol Nascente, região do Bairro Alegre, em São João da Boa Vista. O aparecimento do felino causou alvoroço entre os moradores locais e uma força-tarefa foi criada para resgatar o animal com segurança e realizar sua soltura.

Conforme apurado, um morador avistou e fotografou a onça-parda andando pelas ruas do bairro, por volta das 4h, e avisou um vizinho que tem uma chácara no local. Logo pela manhã, o proprietário se deparou com o felino dentro de um galinheiro que estava na calçada do imóvel. Na ocasião, ele conseguiu trazer o compartimento com o animal para dentro da chácara e acionou o Corpo de Bombeiros.

Resgate: felino foi solto em área monitorada há mais de 10 anos, tanto pela Fazenda-Escola do UniFEOB, quanto pela Fazenda Alegre (Fotos: Reprodução/Corpo de Bombeiros)

Uma equipe de veterinários foi chamada para sedar a onça-parda. Após o procedimento, o felino foi capturado e colocado em uma jaula. O animal foi solto por volta das 14h20 em uma área monitorada da Fazenda Alegre, sendo reintegrado à natureza.

DIMINUIÇÃO DO HABITAT

Especializado em animais silvestres, o médico-veterinário Plínio Aiub acompanhou o resgate da onça-parda e explicou que aparições deste tipo têm se tornado cada vez mais comum. “O habitat está diminuindo na mesma proporção que estamos avançando e isso é um acontecimento mundial. Aqui, localmente no Estado de São Paulo, a caça praticamente foi abolida e isso tem proporcionado o enriquecimento da fauna como um todo. A volta de espécies como o canário, o pintassilgo, o bigodinho e o coleirinha são exemplos das aves. O aparecimento de mamíferos — como cachorro-do-mato, quati, tatu, gambás e ouriços — e de répteis — como teiú, outros lagartos e serpentes — é presença certa nas áreas mais periféricas do município, assim como a onça, o lobo-guará e o tamanduá-bandeira, que são animais de maior porte e que também têm sido avistados em diversas cidades”, comentou. “Existe sim uma pressão antrópica de perda de habitat, mas, São João e região, a riqueza de fauna é fator preponderante para as ocorrências”, observou.

MONITORAMENTO

Plínio relatou que a onça-parda resgatada se trata de um jovem macho que teria vindo possivelmente da divisa da chácara onde foi capturado com a área rural que se liga com as reservas da Fazenda Alegre e com o Parque Estadual de Águas da Prata, que forma um grande fragmento de mata que cobre a Serra da Paulista e se estende até Minas Gerais.

A soltura do felino gerou alguns comentários nas redes sociais em relação à segurança de moradores e trabalhadores rurais. Diante disso, o médico-veterinário tranquiliza e frisa que a soltura ocorreu em uma área monitorada. “O risco de aparecer não é mais uma suposição! No entanto, o risco de ataque é ínfimo pelo histórico nacional. O animal já está adentrando as periferias da cidade, fato que tem sido muito comum”, afirmou. “A aceitação de que não estamos sozinhos nesse planeta e que os animais precisam de liberdade acho que é o ponto de partida. Casas e chácaras nas regiões periféricas das cidades, que têm contato com o meio rural ou áreas verdes, estão sujeitas a entrada de animais silvestres, peçonhentos e não há como impedir que os animais existam. Galinheiros, animais presos em cercados são atrativos de animais carnívoros e isso é inerente a espécie. As pessoas mais temerosas aos animais devem procurar residir em áreas mais centrais, onde o risco é menor, completou.

REFÚGIO ECOLÓGICO

De acordo com Plínio, a região onde a onça-parda foi solta é uma área já monitorada há mais de 10 anos, tanto pela Fazenda Escola do UniFEOB, quanto pela Fazenda Alegre. “Foram registrados por câmera trap, ao longo dos anos, famílias de onças entre outros animais da nossa fauna que sempre foi presente e abundante, principalmente depois que a Fazenda Alegre se transformou num refúgio ecológico privado, reflorestado, protegido e gerenciado por uma equipe de biólogos, assim como do outro lado do Rio da Prata, que é gerenciado pela Fazenda Escola, a qual também, tem sua reserva legal preservada e rica em biodiversidade”, relatou.

Felino: onça-parda foi sedada e capturada com segurança por equipes de bombeiros e médicos-veterinários

PROPOSTAS

Por conta do aparecimento cada vez mais constante de espécies na área urbana, Plínio acredita que São João da Boa Vista poderia se articular para ter um Centro de Triagem, Reabilitação, Destinação de Animais Silvestres (CeTRDAS), para que a Polícia Militar Ambiental e o Corpo de Bombeiros tenham um espaço adequado para encaminhar os exemplares resgatados. “Também como cidade principal da nossa microrregião, poderíamos participar de projetos como o Reconecta Campinas, para mobilizar cidades vizinhas a coligar, cada vez mais nossas reservas e conectar todos esses corredores ecológicos para preservação das espécies”, avaliou. “Oportunidade de resgate como este [da onça-parda] pode ser muito mais aproveitada com o encaminhamento deste animal em um CeTRDAS daqui, para colocação de um rádio colar, monitoramento da sua espacialização e tantas outras coisas que poderiam ser feitas em prol do estudo da nossa fauna regional que podem redundar em medidas preventivas e evitar sustos como estes”, concluiu o médico-veterinário.

Aparições cada vez mais frequentes

Nos últimos anos tem se tornado cada vez mais frequente o aparecimento de diferentes animais silvestres na área urbana de São João da Boa Vista. Confira:

Urutau na frente da prefeitura: Nesta semana, o aparecimento de um urutau chamou atenção dos sanjoanenses. A ave, que tem hábitos noturnos e é conhecida pela capacidade de camuflagem, ficou pousado em um postinho em frente à prefeitura. O fato foi registrado pelo fotógrafo Rodrigo Trevisam e repercutiu nas redes sociais.

 Quatis no Parque dos Jequitibás: Em março de 2024, ganhou repercussão a ‘invasão’ de quatis em diversas casas do Parque dos Jequitibás e bairros próximos. Em busca de alimentos, os animais têm entrado em quintais, mesmo com a presença de cães, e espalhado o lixo, causando uma série de transtornos.

 Gato-do-mato-pequeno na Vila Zanetti: Em fevereiro de 2024, um gato-do-mato-pequeno foi encontrado morto nas imediações da Vila Zanetti. O fato reascendeu a discussão sobre a necessidade de São João da Boa Vista criar sistemas de proteção contra atropelamentos para as espécies silvestres.

Lobo-guará na Vila Bancária: Em setembro de 2019, um lobo-guará foi filmado nas proximidades do Mercado dos Pneus, na Vila Bancária. Na época, o canídeo também foi visto pelas ruas do Jardim Guanabara. Após esses avistamentos, não se teve mais informações sobre seu paradeiro.

 Tamanduá-bandeira no Recanto do Lago: Em abril de 2018, um tamanduá-bandeira foi avistado em volta do piscinão do bairro Recanto do Lago. O fato despertou a curiosidade dos sanjoanenses e um internauta chegou a gravar um vídeo, que viralizou nas redes sociais. Após essa aparição, o animal não foi mais visto.

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