De São João para o mundo

Por Pedro Souza
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Com 24 anos, Victor Alcará já pode ser considerado um dos principais atletas da história de São João da Boa Vista. O garoto que começou a nadar ainda criança nas piscinas da cidade se tornou, em 2023, o primeiro sanjoanense a conquistar uma medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos — e agora, depois de anos de trabalho intenso, está prestes a viver outro momento inesquecível: vai disputar o Campeonato Mundial de Esportes Aquáticos, em Singapura, de julho a agosto, depois de atingir o melhor tempo da carreira nos 50 metros livres: 21s82.

Filho do celeiro histórico da natação sanjoanense — cidade que, em 1971, sediou o Campeonato Brasileiro Absoluto, algo inédito para o interior paulista na época — Alcará carrega com orgulho suas raízes, mas é nos palcos internacionais que vem escrevendo os melhores capítulos. A seguir, ele fala com exclusividade sobre sua trajetória, bastidores da vida de atleta e o que espera do futuro.

O MUNICIPIO entrevistou Victor Alcará, primeiro sanjoanense a conquistar ouro no Pan e que disputará o Mundial em Singapura após atingir o melhor tempo da carreira (Divulgação/Arquivo Pessoal)

ENTREVISTA

O MUNICIPIO: Você sente responsabilidade e orgulho de ser um representante de São João em competições tão importantes?

ALCARÁ: Sinto muito mais orgulho do que responsabilidade. Essa tal responsabilidade pode virar pressão, e não é isso que quero carregar. A cidade tem muita tradição na natação, sempre teve atletas muito bons — e continua tendo. A base está chegando forte de novo. É um orgulho enorme representar São João pelo mundo.

O MUNICIPIO: A medalha de ouro no Pan-Americano de Santiago foi o momento mais marcante da sua carreira?

ALCARÁ: Com certeza. Subir no pódio em primeiro lugar no Pan, que é uma competição valorizada no mundo todo, ver a bandeira do Brasil subindo e o hino tocando. Só de lembrar já arrepia. A gente treina e se esforça para isso, mas quando acontece, parece que não acreditamos. Demora pra cair a ficha.

O MUNICIPIO: Você recentemente quebrou a barreira dos 22 segundos nos 50 metros livre. Como foi esse processo?

ALCARÁ: Nadei para 21s82 no Troféu Maria Lenk, depois de quatro anos perseguindo essa marca. Estava sempre perto, batendo na trave. Quando finalmente consegui, foi como uma descarga de energia guardada por esses quatro anos. Eu sabia que podia fazer, mas não estava conseguindo, e isso me deixava angustiado. Quando saiu, foi só comemoração.

O MUNICIPIO: Desde a mudança do Corinthians para o Pinheiros, o que mudou nos seus treinos?

ALCARÁ: Na minha carreira, tive três mudanças muito importantes: a primeira foi quando aprendi a nadar na piscina de Águas da Prata e fui para a Esportiva competir; depois, da Esportiva para o Corinthians; e mais recentemente, do Corinthians para o Pinheiros. Cada uma aconteceu no momento certo, quando eu sentia que precisava de novos ares, de novas pessoas e estilos de treinamento. Estava inseguro na época de sair do Corinthians, foram seis anos lá. Mas acreditei no novo projeto — e os resultados estão vindo.

O MUNICIPIO: Como é sua rotina de treinos e cuidados com o corpo e a mente atualmente?

ALCARÁ: Treino todas as manhãs, de segunda a sábado. À tarde, treino também às segundas, quartas e sextas, além da musculação e acompanhamento psicológico. Mas algo que pouca gente fala é sobre o descanso. Pra gente, descansar também é treino. Ter um tempo livre para relaxar é essencial pra chegar forte ao próximo treino e competição.

O MUNICIPIO: Quais são seus próximos objetivos? A Olimpíada está no seu radar?

ALCARÁ: Treinei muito para alcançar o índice da última Olimpíada, mas, por detalhes, não consegui. Mesmo assim, o objetivo continua o mesmo. Vou seguir firme treinando para Los Angeles 2028. Neste primeiro ano do ciclo olímpico, já melhorei minha marca e alcancei o índice olímpico e mundial, que é de 21s86. Isso me motiva muito a continuar.

O MUNICIPIO: Tem alguma memória especial de São João que você guarda com carinho?

ALCARÁ: Tenho sim. Lembro da minha primeira competição em São João, na piscina do Palmeiras, uma competição regional. Foi marcante. Teve até um fato curioso: nadei os 400 metros livres e errei a contagem, parei nos 350! O árbitro teve que me avisar que ainda faltavam 50 metros. Terminei a prova depois, claro. Nunca mais esqueci.

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