Cavalgada reúne grande número de participantes

Por Clovis Vieira
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Pelo 35ª ano consecutivo, mais de 100 cavaleiros participaram da edição 2025 da ‘Cuecada’. A cavalgada anual recebeu este nome desde o início, devido à exclusiva participação masculina no passeio. Este ano, foram 30 km em um percurso que incluiu a Fazenda Coqueiro, seguindo em direção a Vargem Grande do Sul (SP), São Roque da Fartura (SP), Fazenda Fartura, voltando até Vargem Grande do Sul e chegando a São João.

Desta vez, foram feitas duas paradas pensando no bem-estar dos animais: “os cavalos ficaram em Vargem Grande nessas paradas e os cavaleiros foram de ônibus descansar num hotel de Poços de Caldas (MG), onde fizemos dois pernoites”, explicou Jairo Hamilton Domingues, 74, um dos coordenadores do evento junto a Antônio Malta de Alencar Neto, 65, o Tony Malta

Domingues gosta de dizer que “cavalo não combina com asfalto”; o que motiva os organizadores a procurar algum percurso que dê condições de visibilidade para apreciar a natureza.

Tradicional Cuecada chegou à 35ª edição (Divulgação/Leandro Gulin)

COMEÇO DE TUDO

Em abril de 1988, um grupo de cavaleiros reuniu-se para conversar sobre a ideia de fazer um passeio a cavalo. “Éramos em, aproximadamente, 20 pessoas”, relembrou ele. “Escolhemos uma trilha que satisfizesse nossas expectativas. Chegamos à conclusão que o passeio sairia de São João da Boa Vista com destino à Socorro (SP). Por se tratar de um passeio rústico, do tipo acampamento, resolvemos que só iriam participar homens; por isso o passeio a cavalo foi batizado de ‘Cuecada’, que acontece sempre no início de abril”, completou.

Entre as providências para a realização da cavalgada, o preparo antecipado dos animais é importante – devem estar ferrados e serem treinados para isso. “Não se pode, simplesmente, tirar um cavalo da cocheira e colocar para fazer uma marcha dessas; isso inclui treinamento, uma boa alimentação e o acompanhamento de um veterinário. O Márcio Bertoldo Motta tem acompanhado a ‘Cuecada’ já faz tempo, mas graças a Deus os animais não têm precisado do serviço dele”, disse.

Com relação às diversas faixas etárias que são recebidas na cavalgada, o sanjoanense afirmou em tom de brincadeira: “Mamando ou caducando não tem problema, todos são bem-vindos! O nosso prazer é ter a companhia de todos: este ano tivermos em torno de dez meninos e a mesma quantidade de ‘veinhos’, como eu”.

HOMENAGENS

A surpresa da 35ª Cuecada foi a homenagem prestada a dois dos pioneiros do evento: Jairo Hamilton e Tony Malta. “Eu fiquei muito comovido, por ser totalmente inesperada e surpreendente”, revelou Malta. Domingues, com humildade, argumentou: “eles extrapolaram um pouco, exageraram… eu não mereço essa homenagem que fizeram pra mim”. Sobre a escolha do mês de abril para a realização do passeio, o que é levado em conta a pouca ocorrência de chuvas. “E mesmo que chover durante a viagem, a gente leva a capa que protege e dá conforto para viajar”.

Com a passaagem do tempos se tornou um ponto de encontro entre amigos, considerou Toni. “Como o tempo passou, muitos deles já se tornaram velhos amigos e, atualmente, temos recebido muitas crianças que fazem a alegria da cavalgada”, afirmou. Este coordenador considera que a ‘Cuecada’ é oportunidade de trazer à tona lembranças de outros tempos e reúne pessoas mais ligadas às atividades rurais, aproveitando um final de semana de muitas lembranças e recordações do passado rural sanjoanense.

“Temos a esperança de que a juventude que nos acompanha desde o início, faça com que o evento perdure para sempre”, disse.  “As crianças que começaram há muitos anos, hoje já estão levando os filhos; e os que começaram jovens, hoje já levam os netos. Temos convicção que, por muitos anos ainda, estes preservarão a cavalgada como uma tradição da nossa cidade”, concluiu Tony.

ARTIGO

Os 35 anos da “Cuecada”

“Quando um cossaco está montado no seu cavalo, só Deus é maior do que ele.”

(Provérbio dos cossacos do Rio Don)

No último dia 5 de Abril,  no “Hotel Nascentes da Serra”, em Poços de Caldas, foi comemorado o 35º aniversário da “Cuecada”, evento hípico que reúne anualmente cavaleiros de São João da Boa Vista, de outras cidades do Estado de São Paulo e inclusive de outros Estados do Brasil. Participaram da  festa os noventa e nove integrantes da cavalgada que então acontecia, alguns convidados e todo o pessoal do apoio logístico.

Foram homenageados com placas comemorativas e com discursos os criadores do evento, e que ainda hoje o organizam, meus bons companheiros e amigos Jairo Hamilton Domingues, o “Chefe” e Antonio Malta de Alencar Neto, o “Tony Malta.” O panegírico dos  homenageados foi feito pelo Dr. Luís Augusto Opice, veterano da “Cuecada”, e criador de cavalos da Raça Mangalarga.

Lembro aqui o dado de que a “Cuecada” nasceu modestamente, como um simples passeio a cavalo realizado por um pequeno grupo de amigos de São João da Boa Vista. E se ela cresceu ao ponto de possuir hoje uma expressão nacional, isto foi devido à impressionante capacidade de organizador ostentada pelo amigo Jairo Hamilton. Além de possuir qualidades de liderança, o nosso  companheiro, graças à sua fina educação é um homem capaz de agregar pessoas em torno dele, sabendo lidar com todo o mundo. E isto possibilita um ambiente cordial, livre de atritos, em que todos se entendem. A primorosa organização, que começa com a cozinha do “Zeca”, explica o sucesso do evento. Quanto ao “Tony Malta”, na sua condição de grande cavaleiro, prima pela boa escolha dos trajetos a percorrer.

Tenho aqui, em primeiro lugar, o dever de dizer algumas palavras sobre o cavalo. Tão íntima e profunda é a sua ligação com os seres humanos, que alguns cavalos tiveram os seus nomes indelevelmente ligados aos seus donos… aqui me limito ao “Bucéfalo” de Alexandre o Grande, ao “Incitatus”, que pertenceu ao Imperador Calígula,  e ao “Babieca”, que se celebrizou junto com o seu dono, Don Rodrigo Rui Dias de Bivar, o “Cid Campeador.” E acrescento que, ao imortalizar o seu D. Quixote de La Mancha, Miguel de Cervantes também imortalizou o cavalo “Rocinante”…

Em segundo lugar falo da Equitação, como arte — inclusive como arte marcial — e como desporto. Em algumas entrevistas que concedi sobre o assunto ao amigo Leandro Gulin, reiterei sempre que a Equitação é um poderoso e eficaz instrumento de educação das crianças e dos jovens. Ela forja o caráter, ao estimular a paciência, a tenacidade e a coragem. Neste sentido, Winston Churchill afirmava que os pais deviam dar cavalos aos seus filhos.

Bem sei que, da “Cuecada” participam muladeiros, e bem assim cavaleiros que se utilizam de cavalos árabes e anglo-árabes. São os nossos amigos do enduro. Mas isto não elide o fato de que  ela é uma festa do Mangalarga!… como integrante,  pelo lado da minha  mãe, da Família Junqueira, este dado é para mim vital…

Há algum tempo ouvi, do Luís Augusto Opice, a assertiva de que “São João da Boa Vista respira o Mangalarga.” Aduzo que esta é uma verdade inconteste: Há muitos anos o saudoso Sr. Heitor Parreira me contou que o primeiro exemplar da Raça Mangalarga que veio para a nossa terra, foi trazido pelo meu tio-avô Rosalvo de Andrade Dias, nas primeiras décadas da passada centúria.  Tratava-se de um garanhão chamado “Brasileiro.” Ao longo do século passado, notáveis selecionadores da raça trabalharam por ela em nossa cidade: João de Andrade Nogueira, José Rui de Lima Azevedo, “Nico” Rossi, Wilson Rosendo Nogueira, Walter e Guilherme Jahnel Rehder, Heitor Parreira e Carlos Coelho Neto, entre outros. E, no momento em que escrevo, José de Freitas Nogueira Filho e o seu primo “Dão” continuam a tradição do avô, João de Andrade Nogueira. Pelo menos um campeão nacional  nasceu aqui: Tratou-se do “Fogo”, filho de “Invasor” e “Aurora”, um produto da “Fazenda Desterro”, do Sr. José Rui de Lima Azevedo.

Se São João da Boa Vista é um centro notável da Raça Mangalarga, é preciso assinalar que a nossa cidade foi e é o berço de exímios cavaleiros, como  Procópio do Amaral Pinto, Ademaro de Andrade Nogueira, o legendário “Zuta”, José de Freitas Nogueira e o meu próprio tio, Alcindo Vaz de Lima.

Todos estes motivos concorrem para revelar a importância intrínseca da “Cuecada.” Tamanha é a sua importância que não hesito em afirmar que os seus criadores e organizadores, Jairo Hamilton Domingues e Antonio Malta de Alencar Neto são nada mais nada menos do que sanjoanenses beneméritos!…

Acacio Vaz de Lima Filho é Segundo Tenente da Reserva do Exército Brasileiro, Arma de Cavalaria, e Diretor Jurídico da “Sociedade Sanjoanense de Esportes Hípicos”

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