Polícia Civil abre inquérito e apura suposta injúria racial

DA REDAÇÃO
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A Polícia Civil instaurou inquérito para apurar um suposto crime de injúria racial envolvendo a jornalista Regina Vasconcellos, esposa do presidente da Câmara Municipal, Carlos Gomes (PL). O caso ocorreu na noite de quinta-feira (2) no restaurante Canecão, situado no centro de São João da Boa Vista. A vítima é um adolescente de 14 anos, filho de Regina Lima de Souza Riquena, funcionária do estabelecimento.

Crime teria sido praticado contra um adolescente de 14 anos, filho de uma funcionária do restaurante Canecão (Divulgação/Via Google)

Segundo o boletim de ocorrência, por volta das 21h30, o jovem foi até o restaurante para pedir a quantia de R$ 20 para sua mãe, que estava trabalhando na ocasião. Assim que ele deixou o local, a funcionária ouviu a jornalista se referir de maneira racista ao garoto. “Olha o pretinho aí. Está com alguma coisa na mão, deve ter roubado”, teria dito a esposa do presidente do Poder Legislativo.

Indignada, a mãe do adolescente se manifestou e rebateu a jornalista. “Não roubou nada não! É meu filho”, respondeu. Conforme apurado, a partir daí, houve discussão e outras pessoas começaram a se envolver, desde funcionários a até clientes.

De acordo com o BO, Carlos Gomes acompanhava a esposa e teria dito que iria processar o restaurante, visto que estariam sendo mal atendidos. Já um cliente que observava a situação saiu em defesa da funcionária e se prontificou a ser testemunha, caso necessário — contudo, a mãe do jovem não conseguiu obter seu nome e contato telefônico.

Durante a confusão, Regina Vasconcellos foi embora do local. Já Regina Riquena foi ao Plantão Policial e relatou o ocorrido. Todo o caso foi registrado por câmeras de segurança e as imagens serão disponibilizadas à Polícia Civil.

CANECÃO SE POSICIONOU

Procurada pela reportagem do O MUNICIPIO, a gerência do restaurante Canecão enviou uma nota de posicionamento a respeito dos fatos. “Primeiramente, nós, do bar Canecão, repudiamos qualquer ato de preconceito contra funcionários, clientes ou qualquer pessoa! Trabalhamos de forma honesta e respeitosa, sempre buscando o bem-estar de todos os funcionários e clientes”, informou. “Ao contrário do que foi dito por alguns veículos de imprensa, nos acusando de ‘sumir’ com as imagens [das câmeras], informamos que, através de seus proprietários, foi dada total liberdade para que a Polícia Civil obtenha todo o conteúdo que estiver disponível para que se apure a realidade dos fatos”, destacou.

“Agora porque é uma pessoa preta correndo é ladrão?”, desabafa mãe

Em entrevista ao jornal O MUNICIPIO, Regina Riquena deu mais detalhes sobre o ocorrido. Ela relatou que naquela noite seu filho foi comprar sorvete com o pai, porém, faltou R$ 20 para pagar. Diante disso, o adolescente a procurou no restaurante. A funcionária contou que, como estava sem dinheiro na ocasião, acessou o aplicativo bancário que tem no celular e entregou aparelho para o jovem ir efetuar a compra. Ele saiu correndo do estabelecimento, momento em que Regina Vasconcellos estava entrando e teria se referido de maneira racista.

Riquena relatou que, ao ouvir o comentário preconceituoso, imediatamente se manifestou, contudo, a jornalista teria ficado agressiva e passou a discutir com outra funcionária que atendia no caixa e está grávida.

Segundo a mãe do adolescente, os clientes interviram e alguns até já estavam acionando a Polícia Militar. Neste momento Regina Vasconcellos foi alertada que tinha uma pessoa gravando a confusão e rapidamente foi embora.

‘PANOS QUENTES’

Riquena comentou que a prefeita Maria Teresinha de Jesus Pedroza (PL) também foi ao restaurante e perguntou o que estava acontecendo. Após tomar ciência do caso, a chefe do Poder Executivo pediu desculpas e teria dito para que tentassem resolver tudo por ali.

Na ocasião, o gerente perguntou para a funcionária se ela gostaria de acionar a polícia, momento em que teria sido questionado pela gestora municipal. “A prefeita falou para ele se estaria induzindo a chamar a polícia. Ele respondeu que não e disse: ‘Estou falando para ela dar queixa e ir atrás dos direitos dela, pois se fosse meu filho eu faria o mesmo’”, narrou a trabalhadora.

JUSTIÇA

Bastante nervosa, Riquena foi para casa e, somente após se acalmar, procurou o Plantão Policial. Já a outra funcionária que é gestante não se sentiu bem e ficou abalada, necessitando ficar alguns dias afastada do serviço, uma vez que sua gravidez é de risco.

“Tudo o que quero é justiça porque, infelizmente, todo mundo está falando que a corda só estoura para o lado mais fraco”, comentou a mãe do adolescente. “Eu acho isso injusto porque é uma criança de 14 anos. O meu filho não tem culpa e pode andar correndo pela cidade sim! Se ele quer correr, ele pode correr! Agora porque é uma pessoa preta correndo é ladrão? Eu não estou conseguindo ficar calma. Estou abalada. Indignada! Não consigo nem ir trabalhar de tanto estresse e de tão chateada que estou!”, desabafou.

Regina Vasconcellos nega acusação e apresenta sua versão dos fatos

Procurada pelo jornal O MUNICIPIO, Regina Vasconcellos negou ter se referido de maneira racista ao jovem e apresentou sua versão dos fatos. A jornalista relatou que acompanhava uma solenidade na Câmara Municipal e, logo após, decidiu ir ao restaurante com seu marido para comer. Ela explicou que estacionou seu carro próximo a Praça Coronel Joaquim José e, ao atravessar a faixa de pedestres na avenida Dona Gertrudes, foi surpreendida pelo adolescente correndo, sem camisa. “Eu assustei com ele correndo. Foi aí que questionei: ‘O que é isso?”, disse. “Como ele veio de cima da praça correndo, falei: ‘Nossa, o que está acontecendo? Será que é um assalto? Um roubo?’. E ficamos olhando para cima pra ver se vinha mais alguém”, afirmou. Regina observou que esses comentários foram feitos no momento em que estava na faixa de pedestres e a mãe do jovem se encontrava no interior do estabelecimento.

DESENTENDIMENTO

A jornalista relatou que, assim que entrou no restaurante, a funcionária disse que o jovem era seu filho e não era nenhum ladrão. Na ocasião, a mulher teria dito que se o adolescente fosse branco, esse comentário não teria sido dito. Regina contou que neste momento tentou explicar que sua fala não tinha nada a ver com a cor da pessoa. “E ainda falei: ‘Se a senhora entendeu isso, me perdoe! Mas não falei nada disso e nem com a intensão de relacionar com negro, com branco, com nada!’”, argumentou.

Durante a entrevista, Regina comentou que, após isso, perguntou a outra funcionária [que estava no caixa] quem era a mulher, ocasião em que foi advertida. “Ela me disse: ‘É que aqui nós exigimos respeito’. Diante disso, eu falei: ‘Aqui ninguém desrespeitou ninguém!”, afirmou.

Em meio a situação, a jornalista resolveu ir para outro restaurante e explicou o que ocorreu para Carlos Gomes — que estava no banheiro durante o desentendimento. No entanto, iniciou-se uma discussão no local e até alguns clientes também se envolveram.

Regina afirmou que se sentiu abalada com toda situação e foi embora após o tumulto. “Fiquei muito mal. Ao entrar no carro comecei a chorar. Fiquei com muita vergonha. Havia bastante gente dentro do bar e foi humilhante. Todo mundo olhando e eu tendo que me explicar para gente que nem conheço! Foi uma situação horrível”, disse.

DEFESA

A jornalista contou que tomou conhecimento sobre a acusação de racismo registrada na Polícia Civil no dia seguinte, por meio das redes sociais. Diante disso, ela condenou o uso político deste fato e adiantou que já solicitou imagens das câmeras e está providenciando a defesa para provar sua inocência neste caso.

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