Professor de Ciências Humanas e psicólogas abordam crimes brutais

Por Marcelo Gregório
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Crimes bárbaros, instigados com excessiva brutalidade e que em muitos casos poderiam ter sido evitados, têm provocado sinal de alerta na população de cidades de médio e pequeno portes. Em São João da Boa Vista, a forma com que um homem foi morto, após suposto encontro marcado via aplicativo de relacionamentos, gerou a seguinte reflexão: o que leva uma pessoa a se colocar em risco mesmo sabendo que pode se tornar vítima?

Retomado o assunto, desta vez, o O MUNICIPIO ouviu profissionais das áreas de Ciências Humanas e Psicologia. A reportagem já havia coletado opiniões de especialistas em Segurança Pública.

Vânia Lima: “Qualquer tentativa de descrever o comportamento da vítima seria um ‘achismo’ que levaria a um julgamento equivocado […]” (Divulgação/Arquivo Pessoal)
 CRESCIMENTO POPULACIONAL

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), São João tem 92.535 habitantes, conquanto os números gerem contestações de que poderiam ser maiores do que os divulgados pelo recente Censo. Acerca do latrocínio — roubo seguido de morte — registrado em julho deste ano, após um suposto encontro marcado via aplicativo de celular, entre o advogado de 34 anos e o principal suspeito do crime, um rapaz de 21 anos, o professor de Ciências Humanas do campus São João do Instituto Federal de Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo (IFSP), Lucas Fuini, opinou que o crescimento de uma cidade pode trazer inúmeros benefícios, contudo não há como se desviar da contrapartida. “[São] as sequelas do crescimento [que] aumentam a desigualdade e a segregação sócio-espacial entre ricos e pobres. A gente percebe claramente que muitos dos crimes que ocorrem têm vinculação com o crime organizado; não é uma atitude pontual”, acrescentou Fuini, mestre e pós-doutor em Geografia.

PAPEL DA EDUCAÇÃO

No latrocínio que vitimou o advogado, as investigações apontaram que houve a participação de adolescentes. Sobre o envolvimento de pessoas com menos de 18 anos em crimes, o docente explanou que o fortalecimento educacional é extremamente necessário. “A gente sabe que a geração que estuda e que permanece mais tempo na escola vai entrar mais tardiamente no mercado de trabalho, [mas] quando entrar terá uma qualificação melhor pleiteando empregos melhores. São fatores estruturais: política de emprego, lazer, cultura, educação”, analisou.

Maria de Fátima Franco dos Santos: para docente da Puccamp, criminosos altamente perigosos deveriam cumprir a pena máxima estipulada pela Justiça, mas com a possibilidade de tratamento psicoterápico

VIOLÊNCIA PODE AUMENTAR

Segundo o professor de Ciências Humanas, municípios que não se preocuparem com o desenvolvimento de políticas públicas poderão sentir o reflexo da violência. “A gente percebe uma realidade em que o narcotráfico se espalha numa velocidade muito grande e alicia jovens, que para manter o vício praticam delitos. Vai ser cada vez mais comum, infelizmente, esse tipo de ocorrência”, lamentou Fuini.

LADO PSICOLÓGICO

À reportagem, a psicóloga e psicopedagoga Vânia Lima citou que parte das vítimas de crimes assume riscos, em muitas vezes, por diversos fatores que precisam de análise. “Algumas características gerais podem ser citadas como baixa estima, carência, medo, depressão, desvios sexuais, alcoolismo, dependência de drogas, perturbações da personalidade ou fragilidade biológica, ou psicológica, [que] podem levar à pré-disposição, tendência ou inclinação para ser vítima”, explicou Lima.

ESTRUTURA DE PERSONALIDADE

Quanto à conduta de criminosos e vítimas, a profissional apresentou hipóteses, mas mostrou-se cautelosa ao fazer apontamentos. “Qualquer tentativa de descrever o comportamento da vítima seria um ‘achismo’ que levaria a um julgamento equivocado, já que seria necessária uma avaliação psicológica completa, analisando vários aspectos da personalidade e de possíveis alterações neuropsicológicas, contexto da vitimização, inclusive traçar o perfil da vítima e do agressor, mediante entrevistas e utilização indispensável de instrumentos (testes, protocolos) validados por órgão competente através de laudos”, reforçou a psicóloga.

TRATAMENTO

De acordo com a professora de Psicologia Forense da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (Puccamp), Maria de Fátima Franco dos Santos, criminosos de alta periculosidade deveriam cumprir a pena máxima estipulada pela Justiça, mas com a possibilidade de tratamento psicoterápico. “Eles devem ser presos em regime fechado o maior tempo possível. No sistema carcerário, em termos de políticas de segurança pública, deveria existir para todos os criminosos violentos uma psicoterapia individual ao menos uma sessão por semana para que eles melhorassem um pouco. Pessoas que comentem crimes [cruéis] não são doentes mentais. Elas têm plena consciência do que fazem”, sugeriu Santos.

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