Betti pode ser alvo de outro inquérito no MP

Relatório com planilha de viagens do primeiro secretário e vereador Fernando Betti (PDT) em 2016 pode ser objeto de outra investigação no Ministério Público. O documento, protocolado no MP na última quinta-feira (18) pela ex-vereadora Elenice Vidolin, revela supostos indícios de má utilização de veículo oficial da Câmara Municipal em pelo menos nove viagens realizadas pelo parlamentar. Betti desconhece o teor do relatório e alega irresponsabilidade do administrativo da Casa na elaboração do documento.

Ainda foram juntados ao documento encaminhado ao MP, o protocolo de entrada na Câmara pedindo a planilha completa do veículo oficial em 2016; o ofício nº  008/2017, de recebimento do relatório; 33 páginas de documentos que demonstram o uso do carro oficial; e quatro páginas com informações acerca da quilometragem entre as cidades que o  veículo percorreu.

A planilha aponta que, em uma das viagens, em 24 de agosto daquele ano, Betti teria percorrido cerca de 638 quilômetros – ida e volta – entre São João da Boa Vista e Santa Rita do Passa Quatro. São quase três vezes mais do que a quilometragem estimada pelo trajeto mais rápido, segundo o mapa de rotas do Google, que mostra que o percurso total entre os dois municípios duraria cerca de 201,4 km em não mais que três horas.

A reportagem do O MUNICIPIO teve acesso à planilha de controle de utilização individual de veículo, um Volkswagen Santana, ano 2004. Nela constam 41 viagens de servidores – incluindo nove do vereador -, com as datas, descrição do uso, além dos quilômetros iniciais e finais.

Na primeira viagem de Betti, em 20 de janeiro de 2016, a descrição mostra que o parlamentar esteve em uma audiência na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), em São Paulo, para tratar de assuntos de interesse do município. A quilometragem inicial registrada foi de 58.640 km e a final de 59.159 km, um total de 519 km de ida e volta entre São João e a Capital.

No trajeto mais rápido via rodovia dos Bandeirantes (SP-348), apesar da possibilidade de tráfego intenso, seria um total de seis horas e 16 minutos, mas o veículo completaria o percurso em 454 km (227 km na ida e os mesmos no retorno), 65 km a menos do que o registrado na quilometragem do veículo oficial.

Cinco dias depois, em 26 de janeiro, o vereador retornou à Alesp para audiência com o deputado estadual e então presidente Fernando Capez (PSDB). No entanto, a quilometragem total registrada foi de 285 km, 234 quilômetros a menos que na primeira viagem. Outras sete viagens e a quilometragem podem ser objeto de inquérito.

De acordo com Elenice, o pedido de investigação junto ao MP foi protocolado tendo ela como cidadã, já que, “os pedidos pelo relatório das viagens foram rejeitados enquanto era vereadora. Antes de terminar meu mandato, inclusive, reiterei meu pedido à Câmara, mas não havia conseguido”. Agora, a ex-vereadora pede para que o Ministério Público tome as devidas providências caso entenda que houve irregularidades no uso do carro oficial.

“Diante da documentação apresentada, existem indícios fortes e suficientes para se abrir a investigação. Se for comprovado, que o MP tome providências e que os responsáveis sejam punidos dentro da lei”, afirmou.

OUTRO LADO

Procurado, Betti afirmou que ainda não tomou conhecimento do teor da planilha de 2016 e ainda prepara a defesa referente ao ano de 2017, já que outro inquérito tramita na promotoria.

O vereador explicou como funciona o esquema para utilização do carro, desde a solicitação, destino, motivo e hora de retorno. Conforme Betti, a responsabilidade pela permissão ou negativa sempre foi do setor administrativo da Casa, tanto da diretora (à época Juliana Abreu) quanto do presidente em exercício (na ocasião o ex-vereador e atual vice-prefeito Ademir Boaventura), e que não há possibilidade de sair com o veículo sem autorização, mesmo que a mesma seja verbal.

Ele esclareceu ainda que o relatório nunca foi feito por quem utilizava o veículo. “Sempre foi feito pela diretora, responsável por ele, em tomar nota da quilometragem de saída e chegada. E não tinha nenhuma assinatura minha referente a este relatório”, mencionou.  O parlamentar salientou também que nunca os relatórios foram feitos na data. “Existe uma planilha de controle, só que nunca foi levada a sério pelo administrativo, o qual é responsável por fazê-la. É da responsabilidade dele (setor) ir até o automóvel para fazer a vistoria”, completou.

Questionado se chegou a ver a circulação do documento de controle de uso do carro, Betti disse: “Cheguei a presenciar alguns comentários dentro da Câmara – em alguma situação -, de ver esse papel ‘rodando’, em ver a diretora pedindo para um estagiário daquela época fazer (o relatório). Na situação de 2017, foi um estagiário que fez todo o relatório do ano inteiro, em novembro. Então, o ‘cara’ fez o relatório baseado em publicações, de quem utilizou o carro, no Facebook. Não é uma coisa real esse relatório. A irresponsabilidade do administrativo da Câmara pode estar causando tudo isso. Eu sei que, dentro das situações todas, trabalhei de maneira correta com o uso do carro”, finalizou.

ROTAS ALTERNATIVAS

O Google disponibiliza o trajeto mais rápido pela rodovia dos Bandeirantes entre São João da Boa Vista e São Paulo, apesar de haver trânsito. No entanto, também faculta ao condutor outras rotas. Entre elas, foi mencionada – no relatório – a possibilidade de trafegar acrescentando a BR-050 à rodovia dos Bandeirantes. Neste caso, seriam aproximadamente 284 km somente de ida, por um período de três horas e 41 minutos (total de 568 km e sete horas e 22 minutos de viagem – ida e volta). Se fosse apenas pela BR-374, levaria o mesmo tempo total, mas com oito quilômetros a menos (560 km).

 

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