A variante P.1 do Sars-CoV-2, oriunda de Manaus (AM), está em circulação em São João da Boa Vista, segundo a Assessoria Técnica de Direção do Departamento Municipal de Saúde e publicado na edição do jornal O MUNICIPIO de sábado (1º). A confirmação ocorreu após análise realizada pelo Instituto Adolfo Lutz, da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, e que apontou o primeiro caso autóctone – contraído localmente – da variante na cidade. Também foi detectado um caso em Espírito Santo do Pinhal, outro em Divinolândia e oito em Mococa.
O estudo, que identifica o panorama das variantes do novo coronavírus em todas as regiões do Estado, foi concluído em 27 de abril. Pelo balanço, foram 164 casos autóctones das três “variantes de atenção” – 152 confirmações de P.1, nove de B.1.1.7 e três confirmações de B.1.351.
A pesquisa foi finalizada e divulgada um dia antes do governo do Estado prorrogar e flexibilizar ainda mais a ‘fase de transição’ do Plano São Paulo. Pelas novas regras, lojas, restaurantes, salões de beleza, barbearias, academias e outros estabelecimentos comerciais e serviços podem funcionar, deste o sábado (1º), das 6h às 20h, e não mais das 11h às 19h. As medidas inéditas ficam em vigor até domingo (9). (veja matéria abaixo)
Ludimila Barros Zan, assessora técnica de direção da Pasta, explica que o caso confirmado em São João teve resultado positivo para Covid-19 em 17 de março, por meio do exame PCR-RT. Dois dias depois, o resultado da mostra foi enviado ao Instituto Adolfo Lutz para sequenciamento genético. “Tivemos a confirmação em 21 de abril que era positivo para a linhagem P.1. Neste caso confirmado, foi um adulto, de 42 anos, e que foi a óbito. Ele e a mãe [foi a óbito]. Muito provavelmente porque a mãe era mais idosa, um caso grave esperado”, disse.
A profissional ainda aponta que há critérios pré-estabelecidos para o envio das amostras de casos suspeitos de novas variantes: pessoas jovens; com quadro mais agressivo (da doença); e sem explicações a mais, como comorbidades, por exemplo. De acordo com ela, várias amostras já foram enviadas, mas, por haver problemas técnicos – porque devem conter uma carga viral alta para o sequenciamento ser realizado -, nem todas passam pelo padrão de qualidade.
“[…] Não é somente esse número que tivemos destas variantes [em São João e nas demais cidades]. Muito provavelmente nós tivemos muitos outros casos. É o primeiro identificado, mas não é o único. Concluímos que um caso só desta variante, sendo que na mesma casa a mãe faleceu, muito provavelmente os dois [mãe e filho] tiveram a mesma fonte de contaminação. Provavelmente, o contato deste caso também foi da variante P.1. E, com o quadro que percebemos dos pacientes cada vez mais jovens, graves, [algo] muito característico do que se descreve desta variante, […] tivemos outros casos, mas que não foram confirmados”, argumentou.
A assessora considera que, com este resultado do estudo do Instituto e de casos em cidades muito próximas a São João, “esta variante está circulando […] entre nós já há bastante tempo, desde quando começou a 2ª onda, onde os casos foram muito fora do padrão esperado como aconteceu no início. Também aumentou o número de mortes e a taxa de transmissão. Isso condiz com as características que os estudos apontam das novas variantes”, afirmou.
São João da Boa Vista já teve 155 vidas perdidas de 1º de janeiro até domingo (2), contra 34 óbitos em 303 dias do ano passado – entre 4 de março a 31 de dezembro de 2020. Nesta sexta (30), os óbitos chegaram a 151 em quatro meses.
Por fim, Ludimila reforça que os protocolos de segurança permanecem os mesmos, porque a forma de transmissão também se mantém. “Temos que reforçar ainda mais os mecanismos de precaução, de segurança, o uso de máscaras, lavagem das mãos, distanciamento social… é isso que continua valendo; além da vacina, que esperamos que tenha uma efetividade alta. Mas não se sabe ainda porque precisávamos ter vacinado a população inteira – ou boa parte dela. Mas a evolução da vacinação ainda está em ritmo lento para termos proteção coletiva. Então, ainda precisamos reforçar os cuidados”, concluiu.
Estudo do Adolfo Lutz identifica 21 linhagens diferentes em SP
Foram avaliadas 1.439 sequências genéticas realizadas pelo Instituto Adolfo Lutz e por outras instituições de referência, que identificaram 21 linhagens diferentes em São Paulo, com prevalência da P.1 de Manaus em 90% das amostras.
A pesquisa também mostra uma evolução desta variante no decorrer dos três primeiros meses deste ano. Em janeiro, ela representava 20% dos sequenciamentos, sendo que em fevereiro correspondia a 40% e em março 80%.
A P.1 está presente nos 17 Departamentos Regionais de Saúde (DRSs) – incluindo a regional sanjoanense, que abrange São João da Boa Vista e outras 19 cidades -, sendo predominante em 15 regiões, com exceção de São José do Rio Preto e de Presidente Prudente, onde a P.2 é mais evidente. A P.1 é considerada pelas autoridades sanitárias uma “variante de atenção” devido à possibilidade de maior transmissibilidade ou gravidade da infecção.
“O aumento dos casos, internações e óbitos que identificamos especialmente no primeiro trimestre deste ano pode estar relacionado à maior circulação desta variante de atenção. Nossas equipes seguem analisando em múltiplas frentes este vírus, contribuindo com a Ciência e com as ações de combate à Covid-19”, explicou a coordenadora de Controle de Doenças, Regiane de Paula.
EVOLUÇÃO
Até outubro do ano passado, a variante B.1.1.28 predominava e chegou a ultrapassar 90% das sequências. Havia também a B.1.1.33 que chegou a alcançar 30% das amostras. Ambas sofreram mutações e deram origem a duas novas variantes, respectivamente: a P.2 e a N.9, que surgiram no último bimestre de 2020. Em novembro, a variante inglesa B.1.1.7 passou a circular no Estado e, a partir de dezembro, a P.1 (derivada da B.1.1.28).
A B.1.1.7 está presente em 12 regiões do Estado, com maior predominância em Campinas e Taubaté – de 12,33% e 21,05%, respectivamente. No caso dessa variante, não há registros em São João da Boa Vista, Bauru, Presidente Prudente, São José do Rio Preto e Marília.
“O sequenciamento genético não deve ser confundido com diagnóstico de Covid-19, até porque não se trata de uma análise individualizada do paciente. Ele também não muda as orientações e hábitos de prevenção, nem mesmo a assistência médica, que considera sempre o quadro clínico do paciente. Identificar as novas linhagens de um vírus é um instrumento epidemiológico que contribui para ações de saúde pública ao permitir que identifiquemos como o vírus se comporta no espaço e tempo”, disse Adriano Abbud, diretor do Centro de Respostas Rápidas (CRR) do Instituto Adolfo Lutz.
SOBRE AS VARIANTES
Há centenas de variantes do novo coronavírus (Sars-CoV-2) ao redor do mundo e, atualmente, somente três são consideradas “variantes de atenção” pelas autoridades sanitárias nacionais e internacionais: P.1, B.1.1.7 e B.1.351. O panorama do Lutz indica que as duas primeiras circulam mais efetivamente em SP.
Existem também as chamadas “variantes de interesse”, que também são monitoradas, mas não sugerem alterações significativas no comportamento da pandemia. A saber: B.1.1.28, que sofreu mutação e deu origem à P.2; B.1.1.33 e sua “derivada” N.9. Elas representam menos de 10% dos sequenciamentos feitos no Estado.
Entenda como é detectada uma variante
A confirmação ocorre por meio do sequenciamento genético com alta qualidade, ou seja: o vírus é “decifrado” para que sejam identificadas eventuais mutações no código genético.
O material analisado é sempre uma amostra positiva para Covid-19 após indicação dos Grupos de Vigilância Epidemiológica (GVE) e Laboratórios Regionais do Lutz. A seleção leva em conta fatores como o perfil do paciente (por exemplo: pessoas que tinham idade inferior a 50 anos e nenhuma comorbidade), bem como o local de origem dessa amostra (como uma cidade onde se constatou aceleração de transmissão ou da mortalidade, após varredura no território e municípios vizinhos).
O banco de amostras de Covid-19 do Lutz recebe esse material, verifica, acondiciona e separa o material, para que o Laboratório Estratégico da instituição realize o sequenciamento do genoma completo do vírus. Este processo consiste numa análise complexa a partir da reextração do RNA viral, clonagem de DNA e sua amplificação, uma sucessão de reações de purificação e dosagem para processamento em equipamentos de última geração. Isso permite a “leitura” dos códigos (sequência de “letras”) e é a partir da comparação com outras sequências previamente realizadas que pode ser identificada uma nova variante, que consiste basicamente de conjunto de mudanças nesse código.
Com estes resultados, o Centro de Vigilância Epidemiológica realiza a investigação para confirmação final. O resultado é comunicado ao município para monitoramento e definição de estratégias de atuação, de acordo com a necessidade.
‘Fase transitória’ ampliou horários deste sábado (1º)
Deste sábado (1º) está valendo a prorrogação da ‘fase de transição’ da quarentena do Plano São Paulo em todo o Estado. A nova etapa foi anunciada em 28 de abril e vale até 9 de maio. Com a alteração, lojas, restaurantes, salões de beleza, barbearias, academias, clubes esportivos e outros estabelecimentos comerciais poderão funcionar das 6h às 20h e não mais das 11h às 19h.
Mesmo com a mudança, o toque de recolher ficou mantido das 20h às 5h, bem como a recomendação de que os estabelecimentos operem com até 25% da capacidade máxima. A atual etapa da quarentena, a chamada ‘fase de transição’, foi estabelecida pelo governo do Estado em 16 de abril para ficar entre a Vermelha e a Laranja.
O funcionamento com restrições de horário, de lojas de rua e atividades religiosas, está permitido desde 18 de abril. Restaurantes, academias, clubes esportivos, salões de beleza e barbearias foram liberados em 24 de abril.
A criação de uma nova fase da quarentena ocorreu após uma leve queda na taxa de internações por Covid-19 no Estado. Apesar disso, a média móvel de mortes provocadas pela doença permanece alta, e abril já é considerado o mês com mais mortes pela doença em SP desde o início da pandemia.
No dia 29 de abril, a Prefeitura de São João publicou Decreto (6.792/2021) com as novas regras de acordo com a ‘fase transitória’ do Plano SP.





