
Abril iniciou de uma das maneiras mais tristes da história do Brasil, quebrando recordes diários de mortes por Covid-19 constantemente. De acordo com a cientista e professora da Universidade de Harvard (EUA), Marcia Castro, entre os dias 1º e 6 de abril, o Brasil registrou 11.774 nascimentos e 12.181 óbitos, um total de 407 mortes a mais. Na primeira semana do mês, mais gente morreu do que nasceu!
Essa sucessiva rotina dolorosa tem afetado a vida pessoal e profissional dos trabalhadores da área da saúde em toda parte do mundo, pois lidar com um vírus desconhecido provoca diversos tipos de sensações ruins.
O MUNICIPIO conversou com dois médicos que trabalham em São João, na linha de frente do combate ao coronavírus, para relatar os fatores que causam essas terríveis consequências.
O médico Daniel Buzatto Westin, 36, trabalha como cardiologista, ecocardiografista e intensivista nos dois hospitais da cidade: Santa Casa Dona Carolina Malheiros e Hospital e Maternidade Unimed. Atualmente é coordenador do ‘Setor Covid’ da Santa Casa e plantonista das UTI’s Covid Santa Casa e Unimed.
Desde o início da pandemia, em março de 2020, a rotina diária de Westin modificou completamente.
“Tudo mudou: meus hábitos, minhas rotinas de trabalho e minhas relações interpessoais. Logo no início da pandemia, eu pensava muito nas minhas filhas, de que eu não veria elas crescerem, que não conseguiria dar suporte para minha esposa na criação delas. Foi um período assombroso. Em abril de 2020, levei minha esposa e minha filha para a casa da minha sogra, em Serra Negra [SP], chorei todo o caminho da volta para São João, sentia que estava indo para a guerra”, declarou.
Segundo ele, o trabalho de um profissional da área da saúde ligado direto a pacientes com Covid-19 é intenso e frenético. “O serviço é 24 horas por dia. Não desligamos um segundo sequer, seja fisicamente, administrativamente ou na preocupação constante com os pacientes. Já cheguei a fazer 200 horas de plantão em um mês. Estou tomando antidepressivo há quatro meses, o que me ajuda para manter a calma e me estabilizar”, contou.

Já a médica Carolina Sorci Ferreira, 31, trabalha nas UTI’s da Santa Casa e no Hospital Francisco Rosas, em Espírito Santo do Pinhal (SP). Para ela também houve uma transformação desde o início da pandemia.
“Eu destaco duas mudanças: uma é a forma como precisamos nos paramentar para atender, com avental, gorro, luvas, óculos de proteção e face shield [proteção facial]; a outra é na rotina de quando chego em casa, pós trabalho. Todos os dias tenho de fazer os procedimentos para evitar qualquer tipo de contato com os familiares”, disse a médica, que já chegou a trabalhar até 84 horas na semana.
Com tantos pacientes infectados pelo vírus nestes 13 meses, Carolina soma diversas histórias diferentes, relacionadas aos enfermos.
“Quando a gente avisa o paciente que iremos intubá-lo, as reações são emocionantes. Todas as vezes que dou essa notícia, faço a seguinte pergunta para o paciente: ‘posso fazer algo por você nesse momento?’ E as respostas são diversas, desde pedido para rezar e ‘quero ligar para minha esposa’ ou ‘deixa eu ver meu filho a última vez’. É sempre muito emocionante”, relatou.
As vidas de milhões de pessoas dependem dos profissionais da área da saúde, que estão sobrecarregados há pouco mais de um ano e por isso pedem a colaboração da sociedade .
“Existem muitos dias de infinita tristeza, eu choro pesado e tenho muita vontade de desistir, mas o soldado não abandona a batalha. Essa doença veio para mudar o mundo e nos mostrar que precisamos de amor ao próximo. Muitas famílias estão sofrendo e precisamos nos policiar nesse momento difícil. Peço para ficar em casa, usar máscara e não aglomerar. Ame os profissionais da saúde, pois eles se arriscam para cuidar de quem precisa”, finalizou.




