“A mudança da UPA é uma decisão dramática, porque envolve uma razão superior, que é a manutenção de vidas humanas”, afirma diretor de Saúde

Entrevista: Fernando Delatti falou sobre as ações adotadas para o enfrentamento da pandemia (Pedro Souza/O MUNICIPIO)

São João da Boa Vista vivencia uma situação dramática. A cada dia que passa, as mortes por Covid-19 aumentam e o número de infectados cresce significativamente. Em meio a este cenário desesperador, o Departamento de Saúde tem adotado medidas para minimizar o impacto da pandemia no município e atendido essa crescente demanda de pacientes. O cenário lembra ao de uma guerra. E neste campo de batalha está o médico Fernando Carlos Delatti, atual diretor responsável pela Pasta. Em entrevista ao O MUNICIPIO, ele falou sobre o atual panorama que a cidade vive e as mudanças que estão sendo realizadas neste momento difícil de enfrentamento à doença.

Foi prudente a mudança da UPA para a unidade do Jardim São Paulo? Como o senhor avalia isso?

Fernando Delatti: A mudança da UPA, do seu prédio original para a unidade do Jardim São Paulo, é uma decisão dramática, porque envolve uma razão superior, que é a manutenção de vidas humanas. A Santa Casa encontra-se colapsada, esgotada em sua capacidade de receber doentes. Através de várias reuniões, chegou-se a um consenso de que a Santa Casa necessita de uma espécie de enfermaria de suporte, fora do prédio principal e que possa dar os recursos que o hospital não encontra no momento. Depois de vários estudos, concluiu-se que o prédio atual da UPA é o único que tem condições de uma rede de oxigênio, uma rede de ar comprimido e mobilização interna dentro das unidades, para podermos receber um doente em situações mais agravadas que o Centro Covid não comporta e que não necessariamente tivesse que descer para a Santa Casa num quadro de gravidades. Seria uma internação/observação em pacientes em grau intermediário. Essa mudança foi deliberada, aprovada pela prefeita Teresinha e autoridades de Saúde da cidade, contando, inclusive, com a participação do Ministério Público, no sentido de informá-lo sobre esta decisão.

 

A unidade do Jardim São Paulo comporta o atendimento realizado no prédio da UPA?

Fernando Delatti: Como vivemos uma época de calamidade sanitária, qualquer decisão que nós venhamos a tomar retira da normalidade aquilo para o qual o município se organizou. No caso do novo local de atendimento da UPA, no Jardim São Paulo, nós não contamos ali com um sistema de Raio-X [radiografia] e laboratório, elementos que temos no atual prédio da UPA. Então como esses pacientes serão tratados quando necessitarem desses serviços? Nós teremos constantemente veículos próprios para locomover esses pacientes para a Santa Casa e o hospital dará suporte a esses atendimentos de laboratório e Raio-X, quando necessário em casos graves.

Sobre a Emeb ‘Antonio dos Santos Cabral’, que funcionará com leitos de enfermaria exclusivos para pacientes da Covid-19, o local conta com estrutura suficiente para atendimentos?

Fernando Delatti: Essa ideia surgiu de uma visão da prefeita Teresinha e do vice-prefeito Roberto Campos, querendo mudar o local do Centro Covid para uma estrutura mais humanitária de atendimento e que oferecesse àqueles pacientes uma situação de suporte mais positivo do que nós podemos dar hoje. Então surgiu a ideia de fazermos essa transferência de atendimento do Centro Covid para o prédio do ‘Santos Cabral’ e a prefeita teve o desejo de ali criar um hospital de campanha. Mas temos que ponderar uma coisa: em pouco espaço de tempo, coisa de 24h ou 48h, a gravidade da situação aumenta de forma terrível. E a elaboração de uma unidade de suporte da Santa Casa, que vai funcionar no prédio atual da UPA, requer insumos e a contratação de trabalhadores. Requer uma estrutura tão complexa, que isso, infelizmente, não pode ser feito em menos de 10 a 14 dias. A elaboração e a construção de um hospital de campanha, com todas as necessidades técnicas que se envolvem neste momento, não estão sendo abordados do ponto de vista de sua efetivação. Primeiramente, nós vamos concluir as mudanças da UPA para o Jardim São Paulo e a instituição desses novos leitos – na UPA atual – para, aí sim, fazermos uma elaboração técnica, com estudo localizado, para termos a possibilidade de obtermos mais estrutura.

 

Como está o consumo de oxigênio e qual o estoque que a cidade conta?

Fernando Delatti: São João conta, na Santa Casa, com uma usina de oxigênio. Historicamente, a produção dessa usina sempre foi superavitária em termos de necessidade hospitalar. Hoje essa usina já não dá conta. Nós precisamos do suporte de ‘torpedos’ de oxigênio. Muitas vezes, os respiradores dão sinais sonoros pela baixa pressão do oxigênio, o que mostra o consumo excessivo. O paciente acometido de Covid-19, que lembra uma insuficiência respiratória, tem a necessidade de um consumo de oxigênio muito alto, bem superior às outras doenças respiratórias. Com isso, nós temos uma verdadeira necessidade de oxigênio em níveis muito maiores.

Esse monitoramento é feito diariamente. Os torpedos estão sendo alimentados, por contrato, uma vez por semana pelas empresas. Mas nós já estamos adiantando a manutenção deles em prazo menor e a compra de mais torpedos. Nós não temos deficiência de oxigênio em São João e nem corremos este risco de modo imediato, mas o consumo nunca foi tão alto. E este é outro elemento para deixarmos toda a estrutura atenta para que não ocorra o colapso também neste setor.

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