
O prefeito de São João da Boa Vista, Vanderlei Borges de Carvalho (MDB), criticou duramente o governador João Doria, após o peessedebista prorrogar a quarentena em todo o Estado de São Paulo até o dia 31 de maio.
A expectativa de Vanderlei, além de outros prefeitos paulistas, era de que houvesse flexibilização gradual no isolamento social em algumas regiões e cidades do interior do Estado, a partir de segunda-feira (11), fato que não ocorreu devido aos baixos índices de distanciamento registrados nos últimos dias, como aponta o Sistema Inteligente de Monitoramento do Governo de SP (Simi).
Na semana passada, entre os dias 4 e 7, a taxa ficou em 47%, dia 8 em 49%, no sábado (9) em 53% e, no domingo (10), em 58%. Já na segunda (11), última atualização, o índice voltou a cair e ficou em 49%, o que demonstra que o sanjoanense apenas respeita o isolamento nos finais de semana.
NO PROGRAMA
No sábado (9), no programa de rádio Em Dia Com a Prefeitura, o prefeito endureceu o ‘tom’ e afirmou que as medidas rígidas e aplicadas por Doria já têm, inclusive, afetado a arrecadação do Município.
O programa foi transmitido simultaneamente pelas rádios 92 FM e Piratininga 970 AM e contou com a participação do médico e vice-prefeito, Ademir Boaventura, e da enfermeira e chefe do Setor de Vigilância Epidemiológica, Ludimila Barros Zan.
Ao anunciar a prorrogação da quarentena em SP até 31 de maio, o governador citou um estudo que mostra a explosão de casos de Covid-19 no interior, onde houve um aumento de 3.000% no número de pessoas contaminadas pelo novo coronavírus.
Pelo estudo, até na sexta (8), o Estado já contabilizada 371 cidades com habitantes contaminados e a projeção é de que todos os 645 municípios paulistas tenham casos confirmados até o final do mês.
“FALTA DE RESPEITO”
Diante do prognóstico para os próximos dias, Vanderlei disse que: “infelizmente, a gente vê muito discurso; esse do governo, ele [Doria] fala que é um governo municipalista. Mas, para mim, é municipalista só de nome. Porque, o que tenho visto por parte do governador é uma falta de respeito com os prefeitos, que não dá mais para aguentar”, afirmou.
O prefeito considerou que a situação de São João possibilitaria flexibilização do comércio e um trabalho diferenciado. “O governador tá [está] lá! Eu ‘vi’ o prefeito de Sertãozinho, alguns prefeitos fazendo manifestações; ele tá lá, fazendo discurso todo dia; ele não tá vivendo a realidade das cidades. Nós, em São João, achatamos a curva, temos uma situação controlada, conseguimos trabalhar a Santa Casa, a UPA, nossas Unidades de Saúde, e, agora, que esperávamos que viesse uma flexibilização por parte do governo do Estado, que ele [Doria] fosse fazer um decreto que desse liberdade para os prefeitos; não!”, disse, contrariado.
ENGESSADOS
Vanderlei reforça que o governador publicou decreto em que “ele ‘engessa’ os municípios. E faz com que o prefeito que não cumpre aquilo que ele colocou no decreto dele – o que ele faz? Vai ao Ministério Público, que entra contra o decreto do prefeito, derruba o decreto do prefeito e abre um processo de improbidade administrativa contra o prefeito. Quer dizer: o que ele está fazendo? Não está dando liberdade. E ele não está ouvindo os prefeitos. Quando fala que está, está ouvindo apenas os de nome. […] Tá difícil conviver com esse governo, infelizmente, aonde ele vem dando ordem aos prefeitos, a cada dia, apenas ordens. Governo municipalista, só de nome”, enfatizou.
Vanderlei esperava que fossem estabelecidos parâmetros para as prefeituras poderem agir. “Agora, quando você percebe queda [redução] das pessoas em casa, é que as pessoas estão chegando num ponto que não aguentam mais. Agora, eu esperava nesse decreto do governador e no pronunciamento […], uma flexibilização do comércio para as regiões e cidades aonde você não tinha casos”, completou.
Em consonância com o vice-prefeito Ademir, Vanderlei citou que São João, na última sexta (8), “tinha uma pessoa internada na Santa Casa com suspeita de Covid; com suspeita ainda, porque não estava confirmado. […] E ‘acho’ que uma pessoa na Unimed [Hospital], ‘né?!, doutor Ademir?!’ (‘Exatamente!’). Veja você! E nós não atendemos só São João; nós atendemos a região aqui, [pessoas] que vêm para Santa Casa. A gente não está numa situação tão difícil, numa situação que nem ‘tá’ a Capital”, alegou.
Contudo, em tese, se cada uma das cidades atendidas pela Santa Casa pela Regionalização tiver um caso grave para atendimento no hospital sanjoanense, a Ala UTI Covid-19 pode saturar. Atualmente, a Santa Casa possui 12 leitos divididos em duas alas exclusivas para casos confirmados e/ou suspeitos, sendo seis deles de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Covid-19 e seis de enfermaria da Covid-19.
GOVERNO DISCORDA
À reportagem, Marcos Vinholi, secretário de Desenvolvimento Regional do Governo do Estado de SP, foi sucinto ao afirmar que o prefeito colocou o posicionamento dele, de forma legítima, apesar de não concordar.
“Discordo da ponderação dele [prefeito], uma vez que estamos com a aceleração quatro vezes maior no interior que na região metropolitana de SP e dentro do mês mais preocupante da crise. O governo já colocou o modelo de retomada das atividades, a partir de 14 dias de declínio de casos e menos de 60% de ocupação de leitos”, afirmou.
Série de fatores negativos preocupa prefeituras
Para a advogada e vereadora Patrícia Magalhães (PSDB), uma série de fatores tem preocupado todos os prefeitos. Entre elas, ela destaca a pressão, a queda da arrecadação, a situação do comércio de suas localidades, o desemprego etc.
“Portanto é legítimo que se manifestem. No caso de São João, o comércio é o principal empregador e fonte de arrecadação. A ajuda prometida pelo governo federal é quase que simbólica, se comparada com a perda de Receita e servirá basicamente para reposição dos valores que deixaram de ser arrecadados em um só mês. Devemos lembrar que as despesas não caíram, pelo contrário, a cidade tem mais compromissos a honrar”, lembrou.
Segundo Patrícia, essa preocupação sobrecarrega o prefeito e acaba se traduzindo na manifestação dele no último sábado (9). “Não digo nem em relação à questão da flexibilização, porque essa flexibilização, ainda que seja dada a autonomia pleiteada, precisa vir acompanhada de posturas técnicas, e São João possui um Comitê de Crise de excelência, que deverá orientar a Prefeitura. A reivindicação é, no fato, de que os prefeitos tenham alguma autonomia, alguma voz nessa discussão”, considerou.
Mas a vereadora pondera: “Acredito que isso já esteja sendo feito pelo Governo de São Paulo, vez que ontem teve início as reuniões com o Conselho Municipalista, que foi criado com objetivo de pactuar as futuras decisões de flexibilização da quarentena e retomada da economia no Estado, ouvindo os municípios”, adiantou, lembrando que o grupo é composto de prefeitos de cidades-sede das 15 regiões administrativas do Estado.
Patrícia reforça, ainda, que as decisões do governo estadual são tomadas com critérios técnicos, científicos e por isso temos que levar em consideração e analisar os estudos apresentados, ao mesmo tempo, em que a preocupação do prefeito é legítima, pois existem peculiaridades em cada cidade.
“A manifestação do prefeito vai de encontro ao tamanho da responsabilidade que ele tem, que depende do ICMS [Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços] pra arrecadar, que depende muito do comércio que esta sendo atingido”, disse.
Por fim, ela reforça que a importância do comércio sanjoanense e que, com queda na arrecadação, desemprego, risco de uma crise ainda maior, traz, de fato, preocupação a todos. “[E] é natural que o prefeito fique preocupado. Vamos ser prudentes, sempre ouvir a área técnica, e lembrar que a real inimiga da economia é a pandemia de Covid 19. Vivemos em um período de exceção e o diálogo com base na Ciência, em conexão com a Economia, vai nos ajudar no bom entendimento entre todos”, ponderou.




