‘Hoje eu nasci de novo!’, diz idoso

Emoção: alta do paciente foi bastante comemorada por médicos e colaboradores da Santa Casa (Bruno Manson/O MUNICIPIO)

“Hoje eu nasci de novo, graças a Deus!”. Foi com esta frase que Antônio Pigatto, 76, definiu recuperação dele, após ter sido acometido pelo novo coronavírus (Covid-19). O idoso permaneceu 11 dias internado na Santa Casa Dona Carolina Malheiros e, após intenso tratamento, conseguiu vencer a doença. A alta hospitalar de Pigatto ocorreu na tarde de quarta-feira (6) e foi marcada por muita emoção, sendo comemorada por médicos e colaboradores do hospital.

Pigatto é caminhoneiro e, recentemente, esteve a trabalho em Belém (PA), onde a situação tem mais se agravado naquele Estado. Para seter ideia, entre 24 a 30 de abril, a capital paraense registrou salto de 51 para 138 óbitos, tornando-se o epicentro da pandemia. Durante a passagem dele por aquela Capital, o sanjoanense começou a notar que a saúde não estava bem e até tomou alguns analgésicos. Mas foi quando retornou para casa que o quadro piorou. “Eu cheguei de viagem do Belém, do Pará, e me senti com o corpo mole, com sono. Estava me dando febre”, contou.

Na época, o idoso começou a sentir um pouco de falta de ar, porém, achou que não era nada grave. Diante disso, esteve na Unidade de Pronto Atendimento (UPA), porém, apresentava uma boa saturação do oxigênio e foi liberado para permanecer em casa, sendo orientado a seguir todas as recomendações médicas.

Como os sintomas persistiram, ele resolveu fazer alguns exames, incluindo o teste para o novo coronavírus, porém, o resultado deu negativo, uma vez que a doença ainda estava em seu estágio inicial. Como já teve dengue, também fez exame para saber se estava infectado, mas novamente o resultado foi negativo. “Pensei até que era algum tipo de pneumonia”, disse.

DESCOBRINDO A DOENÇA

Em meio a esta dúvida, Pigatto resolveu, por conta própria, fazer uma tomografia de tórax. O resultado do exame revelou que os pulmões estavam bastante comprometidos, o que deixou sua família perplexa. Preocupada, a filha dele entrou em contato com um médico conhecido e foi orientada a voltar na UPA e apresentar as imagens.

Ao chegar à Unidade de Pronto Atendimento, o caminhoneiro novamente foi examinado e contatou-se que saturação dele estava baixa. Diante disso e da tomografia, levantou-se a suspeita de Covid-19 e a equipe local imediatamente entrou em contato com a Santa Casa para providenciar a internação.

TRATAMENTO INTENSIVO

Devido ao estado de saúde fragilizado, Pigatto necessitou receber oxigênio durante todo o período em que esteve internado. Mesmo assim, sua oxigenação sanguínea ainda era baixa. “Semana passada, pegamos a gasometria, um exame que vê a oxigenação do sangue. Ele tinha uma oxigenação muito baixa e já havia até as indicações de entubar o paciente”, relatou Daniel Westin, médico plantonista e coordenador da Ala Covid-19.

Diante deste quadro delicado, uma reunião foi realizada com Marta C. P. Damasceno, chefe do Setor de Fisioterapia, para buscar uma alternativa ao paciente. A partir daí, a equipe decidiu submetê-lo a uma oxigenoterapia, com a utilização de uma máscara sob pressão, equipamento também conhecido como ‘full face’. “O ar, com altos títulos de oxigênio, entra nos pulmões com mais pressão. Paralelamente a isso, ele foi deixado de barriga para baixo para liberar a parte posterior dos pulmões para ser oxigenada”, explicou o médico. “Graças a Deus, ele respondeu superbem a este tratamento”, destacou.

A CURA

Por meio deste tratamento,  Pigatto começou a apresentar avanços no quadro clínico. Foram 11 dias internado, em isolamento total. Para conversar com seus familiares, a Santa Casa dispôs um tablet, onde pôde realizar chamadas de vídeo e matar um pouco da saudade.

Aos poucos, a oxigenação sanguínea dele foi melhorando e a saúde se reestabelecendo, até atingir todas as metas do protocolo de alta do hospital. “Fizemos uma sorologia e foi constatado que ele já tinha imunoglobulina específica para a doença. Ele já está na fase de cura e não precisa mais ficar em quarentena”, afirmou Westin. “Precisará agora ter alguns cuidados, como fazer uma reabilitação pulmonar, pois o pulmão vai demorar um pouco para voltar ao estado normal”.

EMOÇÃO

Durante a despedida ao paciente, médicos e colaboradores da Santa Casa reuniram-se para celebrar a recuperação e alta de Pigatto. Na ocasião, ele saiu do quarto conduzido em uma cadeira de rodas, conduzida por um enfermeiro – conforme determina o protocolo da instituição. Visivelmente emocionado, ele não se conteve e deixou as lágrimas caírem enquanto acenava, se despedindo de todos. Ao chegar na recepção, a alegria foi ainda maior ao se deparar com os familiares lhe esperando ansiosamente. O caminhoneiro foi recebido a aplausos, uma demonstração de carinho que o deixou ainda mais comovido.

Do lado de fora do hospital, várias pessoas pararam para acompanhar a despedida do idoso. “A gente vê muita coisa triste pela televisão, mas quando vemos algo assim, de perto, é bastante emocionante”, comentou um operário que acompanhava a movimentação do lado de fora da entidade.

Matando a saudade: idoso conversava com seus familiares por meio de tablet na Santa Casa (Divulgação/Arquivo Pessoal)

“Essa é uma doença muito perigosa e muito contagiosa”, alerta Pigatto

Momentos antes de receber alta, Pigatto falou com exclusividade para a reportagem do jornal O MUNICIPIO. Após narrar todo o sofrimento que vivencio ao estar infectado, o caminhoneiro fez questão de destacar o carinho e atenção como foi tratado durante o período em que esteve internado. “É uma equipe maravilhosa”, afirmou. “Graças ao bom Deus estou curado! Já estou 100% bom!”, disse o idoso, esbanjando alegria.

Mesmo recuperado, ele se mostra bastante cauteloso e fez um alerta a todos que subestimam o novo coronavírus ou não acreditam em sua periculosidade. “Enquanto não acabar essa crise, as pessoas devem tomar muito cuidado, pois é uma coisa perigosa”, declarou. “Tem que ter muita higiene, lavar bastante as mãos, não ficar muito perto dos outros e, se for ficar, usar máscara, pois essa é uma doença muito perigosa e muito contagiosa”, alertou o caminhoneiro.

DESAFIO DIÁRIO

O médico Daniel Westin ainda relatou a importância do trabalho em equipe que está sendo desenvolvido na Santa Casa. “Temos que exaltar o empenho detodos os colaboradores, pois foi uma reconstrução da saúde a vários braços. Todo mundo aqui está engajado para a melhora dos pacientes”.

Em relação a Covid-19, o médico explica que todas as medidas de contingenciamento e isolamento social têm sido fundamentais para conseguir salvar vidas e evitar o colapso do sistema de saúde. “Trata-se de uma doença nova e que não está nos livros. E todos os capítulos estão sendo escritos todos os dias. Tudo o que a gente sabia de Medicina até hoje não se aplicava a esta doença”, declarou. “Estamos aprendendo todos os dias. Acredito que agora estamos chegando em um ponto de entender a doença e de conseguir ajudar melhor as pessoas”, finalizou Westin.

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