Eles estão na ‘batalha’ por todos nós

(Divulgação)

A pandemia do novo coronavírus, sem dúvida, mudou a rotina da maioria dos cidadãos do planeta. O isolamento social foi necessário e porteirospessoas se fecharam em casa em busca de proteção.

Mas, se para alguns a mudança foi esse distanciamento em busca de segurança, para outros foi exatamente ao contrário.

Na linha de frente do combate à Covid-19, profissionais de saúde tiveram que se expor e arriscar suas vidas para salvar outras.

Essa é a realidade de muitos médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, faxineiros, porteiros, secretárias, atendentes, recepcionistas, entre tantas outras funções dentro de um espaço hospitalar.

A reportagem do O MUNICIPIO conversou com três profissionais que estão, literalmente, na linha de frente no combate à doença. E a mistura de sentimentos é uma marca semelhante a todos eles, que passa pelo medo e chega à alegria de ajudar o próximo.

Um deles é o médico pediatra Ademir Martins Boaventura, que está atendendo na ala Covid do Hospital e Maternidade Unimed. O profissional ressalta que é desafiador para todos da área da saúde e que é necessário amar o que faz para dar conta. “Estamos lidando com vidas e colocando a nossa vida em risco também. É muito desafiador esse momento”, disse.

O médico explica que lida com dois sentimentos bem distintos, o tempo todo: o medo e a alegria. “O medo natural de qualquer profissional da saúde, de contrair a doença, precisar de uma UTI, de falecer, ou de contrair a doença e levar para as pessoas que a gente mais ama. É natural que exista dentro de cada um. Mas, existe em contrapartida um sentimento de alegria que compensa e muito o medo”, garantiu.

Boaventura está no front atendendo crianças com suspeita da doença e afirma que é uma alegria muito grande quando examina o paciente e fala para os pais que não é Covid-19. “Você vê ali um sentimento de gratidão que não tem preço. Isso supera o medo da doença”.

Mas, o médico ainda aponta que outros sintomas têm caminhado ao seu lado neste período, como estresse, ansiedade, insônia e a preocupação redobrada com a saúde de toda a população: “Sinto que nós da saúde estamos mais emotivos, conseguindo passar mais segurança para o paciente, para que a pessoa tenha a maior confiança e saiba que está sendo bem cuidada”.

Sobre os cuidados com a família, o pediatra explica que usa todos os Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e quando chega em casa tira sapatos, óculos, máscara, relógio e põe tudo para desinfetar. “Coloco roupa para lavar e antes de falar com minha esposa e filhos e comer vou tomar banho”, detalhou, dizendo ter consciência de que como médico corre risco maior.

“Mas fizemos um juramento para isso e estamos empenhados em evitar o maior número de mortes possível. E isso nos dá um prazer enorme de estar na linha de frente, muito maior que o medo. Não tem nada que pague no mundo”.

Outro profissional que está linha de frente da pandemia é o médico pediatra e neonatologista Marcelo de Azevedo Bernardes Filho, que atua há quase cinco anos na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de São João.

E ele garante que estar na linha de frente nesse momento traz um sentimento de profunda satisfação por poder estar exercendo a profissão que escolheu e que diz amar: “Amo estar podendo praticá-la nas pessoas que realmente necessitam de uma consulta médica”.

Sobre o medo, o médico teme estar sendo um veículo de transmissão do vírus, pois fica muitas horas exposto. “Não tenho medo de me contaminar e evoluir com a doença, e sim de contaminar outros”.

Questionado se pensou em desistir de permanecer na linha de frente, o pediatra afirma que não. “Pelo contrário. Acabei aumentando minha carga horária de plantão, pois sei que estou apto a estar lidando com os doentes. Essas horas o amor pela minha profissão fala mais alto”, contou, ressaltando que está em isolamento e tomando todos os cuidados de higienização, tendo contato apenas com a noiva Aline Tonon.

(Divulgação/Arquivo Pessoal)

BATALHA

Daiane Cabral do Prado, enfermeira há 14 anos, enfrenta um dos maiores desafios da vida: foi uma das escaladas para atuar na ala Covid da Santa Casa, hospital que atende toda a região.

Ela conta que teve medo no início, pois tem uma filha de 3 anos e a mãe, que está no grupo de risco e trata de um câncer. “Eu temo por elas, pois se eu me contamino, eu venho para a casa e contamino elas”, afirmou.

Mas, consciente do seu papel, Daiane ressalta que quando resolveu entrar para a área da saúde fez um juramento e sabia que enfrentaria de tudo.

Ela detalha que ao ir para o trabalho sempre bate uma tensão, mas reforça que é preciso pensar positivo. “Temos que pedir a Deus que ele nos proteja. Quando a gente põe os equipamentos para entrar nos quartos onde estão os pacientes contaminados dá um pouco de medo, mas temos que ter a confiança de que estamos fazendo tudo certo. Se fizer o processo todo correto, a chance de se contaminar é bem menor”, garantiu ela, que também afirma que recebe da Santa Casa todos os equipamentos de proteção corretos para não se contaminar.

Estando na linha de frente, a vida de Daiane mudou totalmente: ela fica mais em casa, não tem tido contato com familiares que não moram na residência e o ritmo mudou bastante.

Hoje, toma banho no hospital e troca de roupa lá. Faz as 12 horas de plantão de máscara, de óculos. “Não era assim. Se eu fico muito tempo dentro de um quarto com um paciente, eu saio e tomo outro banho, troco as roupas novamente. Então, se eu tiver que tomar banho no decorrer do meu plantão cinco vezes, eu vou fazer. Higienização é o que mais me traz proteção”, detalhou.

(Divulgação/Arquivo Pessoal)

Mas, o que ela não abre mão, apesar de toda a preocupação, é o abraço mais esperado do dia, da filha Maria Fernanda. “Minha filha sempre me espera chegar do trabalho, me espera na porta. Eu chego, ela não vem a mim como antes. Eu chego e vou direto para o banho, mesmo tendo tomado na empresa. A roupa vai direto para a máquina. Ai depois do banho, troco de roupa e ai posso abraçar minha filha. Até pensei em me isolar e não ter contato com minha filha e minha mãe. Mas não tive muita opção e elas iriam sofrer”.

Assim, resta a Daiane ter cuidado redobrado no trabalho para não se contaminar. “Tenho que ter cuidado, ela sempre está me esperando para receber meu abraço”, disse Daiane, que não tem dúvidas que vai vencer essa batalha.

“Sou muito empenhada no que faço e vamos vencer todas as batalhas. Temos que matar um dragão por dia. Creio que vamos conseguir. Temos muito treinamento e cuidados aqui. É o que eu mais peço nas minhas orações ao sair de casa, que proteja a mim e os meus colegas de trabalho”, finalizou.

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