
Há algumas décadas, quando se falava em blocos, o Carnaval sanjoanense levava para os salões uma infinidade de grupos de amigos, principalmente crianças e adolescentes, vestidos igualmente, com nomes que se encarregavam de identificá-los em meio à folia.
Se, na multidão, alguém se dispersava, pela roupa ficava fácil descobrir ‘essa é do bloco Meia Soquete, esse é do bloco Sob o Luar e assim por diante.
Apesar de não ter frequentado muitos Carnavais, Fafá Noronha se recorda de um bloco, o ‘Quando Arlequim chorou’, do qual ela fez parte, em 1981, ocorrido nos salões da Sociedade Esportiva Sanjoanense (SES) e que era formado por um grupo enorme de amigos.
“Isso foi um ano antes de eu me casar e eu me lembro que tinha um caminhão e a gente saiu na rua e participamos com esse bloco na Esportiva. A gente passou meses bordando as fantasias, colando lantejoula por lantejoula, era muito lindo. Essa é minha participação, mas não é muito grandiosa, nem muito tradicional”, comenta Fafá, entre risos.
E acrescenta que, com o passar dos anos, passou a fazer blocos para os filhos. “As crianças participavam nos blocos do Centro Recreativo e eu e a Vânia [Noronha] fazíamos parte do júri desses blocos e fantasias. O pessoal do ‘sr.’ Ditinho Peres fazia blocos incríveis, e tinha os blocos masculinos também”, recorda ela.
Sobre os Carnavais atuais, Fafá revela que aprova a possibilidade de resgate de blocos. “É super saudável! Famílias inteiras podem participar, sair às ruas com seus temas criativos e fantasias divertidas e coloridas. Há alguns anos eu e Carioca vamos à cidade de Tiradentes, no Carnaval. É uma delícia! Blocos e mais blocos se organizam e têm dias e horários marcados para se apresentar pelas ruas da cidade. É lindo de ver e torço para que São João seja assim também! O Bloco do Osório traz essa vontade para as ruas, que bom! Que venham outros mais”, conclui.
A professora de inglês aposentada Chiquita Pereira Lima lembra das matinês nos salões do Centro Recreativo Sanjoanense, clube que frequentou desde seus dez anos de idade. “Era tudo muito bem organizado e ao som de lindas marchinhas. Ficava bem vermelha quando tocavam Chiquita Bacana. (risos) Quando pude entrar à noite, já aos 14 anos, fiz vários blocos com as amigas Iza e Marisa Mancini, Eliana e Heloísa Malheiros, Roice Mello e tantas outras. Hoje em dia, não curto mais o Carnaval, acho que a brincadeira saudável se perdeu com o tempo. Mesmo assim, admiro quem ainda se anima e cai na folia”, analisa Chiquita, desejando Bom Carnaval a todos.
Para o professor José Marcos Martins, que é historiador na Esportiva Sanjoanense, a brincadeira e alegria dos Carnavais de salão de antigamente fazem falta nos dias atuais.
“Hoje há muita bebida e sexualidade muito mais aflorada. Os mais antigos ainda dizem ‘vamos brincar Carnaval’. Há pouco mais de 20 anos, o Carnaval era muito mais movimentado, era lotação máxima em todos os clubes da cidade, na Esportiva, Palmeiras, Recreativo, Rosário, Luiz Gama, além de uma grandiosa festa popular na avenida, a famosa ‘Vai quem quer’. A maioria com 5 noites e 4 matinês, e como eu disse, lotação máxima nos eventos”, recorda ele.
E compara que, atualmente, os jovens veem o Carnaval como mais uma festa corriqueira de final de semana, não existe aquela empolgação em participar dos bailes ou escolas de samba.
Indagado se algo mudou para melhor, José Martins considera a pergunta difícil, mas acredita que a parte de segurança, infraestrutura e facilidade de comunicação através dos meios digitais entre as pessoas que organizam os blocos, principalmente nos grandes centros, tenha sido um avanço.
“Antigamente era muitíssimo mais animado e movimentado, porém não havia segurança nenhuma, tampouco banheiros nos carnavais de rua. Ás vezes ocorriam brigas feias, como uma no Palmeiras, em 1995 ou 96, em que quebraram tudo lá dentro, e uma no Carnaval de rua, que até a polícia apanhou. Antes também era raro ver drogas — certamente usavam, mas era mais velado e hoje em dia, jovens parecem competir pra ver quem bebe mais ou usa mais drogas. Na minha geração, a competição era para ver quem beijava mais”, finaliza o professor, entre risos.




