
BRUNO MANSON
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Um verdadeiro intercâmbio cultural. Assim foi a visita dos índios Kanela na região durante a última semana. Valdo Kuipot, 26 anos, Jairton Amjikin, 27 e Irã Putxoro, 45, vieram do Maranhão – onde sua tribo se encontra – para São João da Boa Vista. A vinda dos indígenas ocorreu por intermédio da professora Claudia Sarti, do Espaço Yoga Mantiqueira.
Ela esteve na tribo por duas vezes e, inclusive, chegou a ser “adotada” por uma família indígena, prática comum com os visitantes mais queridos.
Os índios foram recebidos pela professora juntamente com sua filha Bárbara Li Sarti e a antropóloga Marta Maria do Amaral Azevedo, ex-presidente da Funai. Durante o encontro, eles contaram sobre a rotina da tribo, seus costumes, tradições e como estava sendo esta visita inédita à região, pois até então, somente Irã havia viajado para fora do Maranhão – isso uma única vez, durante os Jogos dos Povos Indígenas. Já Valdo e Jairton nunca tinham ido para tão longe assim, mas contam que sempre tiveram curiosidade de conhecer outros lugares.
A ALDEIA
A reportagem do jornal O MUNICIPIO acompanhou com exclusividade a chegada dos índios em São João da Boa Vista. Os kanelas habitavam há pelo menos 4 mil anos a Região Central do Brasil. Atualmente sua aldeia está situada nas terras demarcadas próximas ao município de Barra do Corda (MA), possuindo cerca de 2 mil habitantes – estima-se que o Estado do Maranhão abrigue aproximadamente 45 mil indígenas.
A aldeia Kanela tem formato circular, possuindo um grande pátio no centro, onde acontecem suas reuniões e festividades. Apesar da influência do homem branco, ainda existem índios mais velhos que não falam português, como é o caso de Irã.
Durante a visita, os índios contaram que seus bisavós tinham lembranças violentas do primeiro contato com o homem branco – chamado de kupé em seu idioma –, isso em meados da década de 20. “Muitas guerras e matanças aconteceram”, conta Valdo, destacando que foi um grande ganho a preservação das terras indígenas por lei.
Apesar disso, a violência contra os povos indígenas ainda ocorre nos tempos atuais. Exemplo disso foi o desaparecimento de dois membros da tribo, o que levou os kanelas a instituírem procedimentos para entrada ou passagem do homem branco na aldeia.
COSTUMES
Ao comentar algumas tradições de seu povo, Valdo relatou que os kanelas casam-se apenas entre eles. Ele explica que esta regra foi adotada para manter os membros na aldeia e garantir a perpetuidade da tribo. Um fato curioso é que, quando nasce uma criança, o pai deve ficar separado da esposa e seu bebê por três a cinco meses. Este período é chamado de “resguardo” e existe para respeitar o período pós-parto e também zelar pela saúde da criança.
Além disso, geralmente são as primas ou irmãs da mãe que dão o nome indígena para a criança. “A pessoa também recebe um nome branco, que pode ser escolhido por ela mesma ou pelos pais”, conta.
Valdo comenta que sua tribo realiza celebrações, procurando manter vivos os costumes de seus antepassados, como a Festa do Peixe, que acontece anualmente em agosto. Há também danças típicas que são realizadas no pátio e cerimônias em que são entoados cantos e faz-se o uso de instrumentos musicais como a maracá, por exemplo.
Entre as tradições, ele relata o período de reclusão que todos os homens da aldeia devem permanecer. Trata-se de um rito de passagem para a vida adulta, quando os adolescentes ficam em uma moradia, isolados do restante da tribo, mantendo contato somente com suas mães ou irmãs – as responsáveis por lhes levar alimentos. Nesta prova, os adolescentes podem sair somente durante a madrugada para se banhar no rio e voltar rapidamente para o abrigo, sem manter contato com ninguém da tribo.
ARTESANATOS
Quem quiser conhecer um pouco da cultura Kanela pode conferir os artesanatos produzidos pelos índios. São cestos, colares e diversos tipos de ornamentos confeccionados com materiais extraídos diretamente da natureza. Os itens estão à disposição no Espaço Yoga Mantiqueira, localizado na rua Júlio Jorge da Rosa, 126, no São Lázaro.




