Que medo, credo!

Creio que nunca nas nossas vidas, na minha e com certeza na sua, passamos por um momento como este. Jamais fui confrontado, nesta longa e nem sempre pacata existência, por uma ameaça tão próxima e tão nefanda quanto a que me aponta diariamente esse danado coronavírus. Em ato mecânico, muita vez apresso-me a vazar porta afora,ainda ajeitando a jaqueta, quando percebo que, vencida a soleira e passados os umbrais, tenho que sofrear o passo e encarar o perigo que me espreita. Encarar? Como?Se o perverso é tão pequeno, tão minúsculo que nem se deixa ver? E, no entanto, como dizia Cícero do rebelde Catilina, ele vive – hic tamen vivit. Não só vive, mas vê e aponta cada um de nós para a morte, esbravejava no senado romano Marco Túlio. Digo o mesmo do bichinho coroado. Lá está ele, com sua coroa cheia de espeques, com suas setas mortíferas querendo derribar-nos.

Quem tem medo dele? Todo mundo. Que haja duas ou três pessoas que não tenham, vá lá. Afinal, conheço quem diga que a terra é plana, que os dois primeiros seres humanos foram feitos um do barro e outro da costela desse um,que tem alguém dentro da tevê falando… Até houve um ministro que disse ser o rock puro satanismo. Pode não gostar, mas dizer que o Elvis Presley, com sua guitarra, era o demo com seus cornos – isso já é ir longe demais na estultice. Igualmente há quem não tenha medo do minúsculo coroa. Dois ou três, se tanto.

Será que nossos pais e avós tiveram medo da gripe espanhola? Diga o historiador Duílio Battistoni Filho. Será que há sete séculos nossos longínquos antepassados morreram de medo da peste negra? Talvez tenham morrido da própria peste, mas não terão antes invocado todas as divindades para os proteger do inimigo que os amedrontava? Que amedrontava não paira dúvida: a peste negra dizimou no século 14 a terça parte da humanidade.

Não sou apologista do medo paralisante. Penso que é hora de nos voltarmos para nós mesmos, pensarmos o que somos e o que queremos da vida. É uma primeira forma de enfrentar o medo. Não é hora de nos deixar levar pela inconsequente “diversão”, que, como dizia Sartre, faz com que não pensemos, que passemos “distraídos” pela vida. É tempo de pensar, naquela atitude clássica do Pensador de Rodin. Tempo de extrairmos de dentro da nossa casca o caroço existencial que nos diferencia do ramo neandertal de nossa espécie, que, por estupidez, depereceu. O ramo de que viemos, o sapiens, por pensar prosperou. Só porque pensou, enfrentou o medo dos primórdios e deu no que deu: nós, as mulheres e os homens modernos, medrosos mas extremamente valentes e vitoriosos.

O historiador francês Jean Delumeau escreveu uma obra imperdível: História do medo no Ocidente. Quem não leu está na hora de ler. Ele mostra que, no decorrer dos séculos, o homem sempre teve medo. Que homem, medo de quê? Isso variou bastante. Assim como variou, e muito, a maneira de encarar o medo.

Temos medo do coronavírus? Nossos antepassados eram trespassados pelo medo das pestes. Medo da morte? Tinham, e por isso temiam a peste. Medo do que vem depois da vida? Nossos avoengos puxavam os cabelos pensando no inferno, elinfiernotan temido, no verso em que Santa Teresa de Jesus canta o amor místico. O medo estava presente no cotidiano das pessoas. Vovô navegante tremia de medo quando se punha ao mar e pensava nos monstros marinhos, nas serpentes imensas, no misterioso fogo que à noite fulgia no meio da água, fogo que ele não sabia provir do fósforo associado às descargas elétricas dos temporais, fogo “que as marítimas gentes têm por santo” no belo canto lusófilo de Camões. Titio ia casar e morria de medo de falhar na hora agá, tinha que fazer mandingas para cumprir o “débito conjugal”, os padres ensinavam a fazer uns nozinhos de pele para entusiasmar o noivo.

Mas os medos foram vencidos, Vasco da Gama contornou o temível cabo na pontinha meridional da África do Sul e chegou à Índia, o noivo cumpriu o devido e aí está esse povaréu de bilhões de almas geradas no tálamo de antanho e no de hoje. O maior de todos os medos, aquele que assombrava a todos e o tempo todo, era a peste. Quando seu manto roxo de morte chegava a um lugar – era a debandada geral. Poucos dentre os afortunados permaneciam. Nobres, clérigos, gente de fartos bens e altos soldos – fugiam todos. Ficavam os que não podiam correr. Vírus? Não tinham a menor ideia do que fosse isso. O menor animal que conheciam era a galinha. Pasteur, que descobriu a microvida, o micróbio, devia ser entronizado como o maior benfeitor da humanidade. E Oswaldo Cruz, com amplos méritos, devia figurar no panteão da pátria.

Hoje sabemos que o vírus coroado é um vírus, melhor dizendo, um clã de vírus assemelhados, todos contornados pela tal coroa cheia de espinhos. O que ora nos molesta é o dezenove. A ciência ainda não conhece muito sobre ele. O que sabe, porém, é o bastante para nos encher de medo e fazer com que fiquemos recolhidos à casettanostra per piccolache sia. Mas não como paspalhos paralisados. E sim como produtivos e esperançosos humanos que sabem, sabem muito bem porque aprenderam com a história, sabem que esse medo será vencido e que a vida espancará a morte.


Sérgio Castanho é pesquisador e professor da História da Educação na Unicamp e titular do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas e da Academia Campinense de Letras

COMPARTILHAR

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here