Dona Elza: 60 anos fazendo o ‘pão nosso de cada dia’

“Meu nome é Elza Alves de Melo, mas eu sou conhecida como Elza da padaria”, conta rindo desse apelido. Aos 91 anos de idade, mãe de Lucia Helena, avó de três netos e 60 anos à frente da Panificadora Apolo 11 (entre outros nomes), Dona Elza afirma que durante todo esse tempo pondo o pão na mesa do sanjoanense, ela não conquistou fregueses: fez amigos para toda a vida.

Ela é a figura central da Praça Coronel José Pires, a mais reconhecida e respeitada pela vizinhança, que com ela convive nesses anos todos, mesmo estando hoje um pouco reclusa em seu apartamento, no andar superior da ‘sua’ padaria. A memória parece impecável, assim como sua audição. O corpo, já franzino e um pouco arqueado, denuncia a inexorável passagem do tempo.

1.500 PÃES

Sua entrada no ramo da panificação aconteceu quando ela adquiriu a padaria, que já tinha passado por muitas mãos. E conta que “depois de um tempo nessa lida, eu divorciei do meu marido e fiquei só eu trabalhando; e venci da batalha”, orgulha-se.

Apesar do apelido carinhoso, ela, de fato, nunca pôs a mão na massa. “Tinha os padeiros, mas era eu quem administrava a padaria e arrumava dinheiro para tudo: pagar a farinha, pagar os impostos, a água, a energia elétrica…” Dona Elza aponta que viveu numa época mais difícil que a de hoje, que oferece tantas facilidades para administrar um comércio assim.

E exemplifica: “Hoje tem câmara fria, é só fazer os pães e colocar na geladeira; antes era preciso usar toda a farinha dos sacos e fazer muita massa. O pão era uma delícia!”, lembra. Foi aquele tempo em que os padeiros varavam a noite fazendo pão para atender à clientela logo pela manhã. “Esse forno aí (referindo-se ao forno que ainda funciona) tem 60 anos!”

Ela se lembra de um padeiro que atravessava a noite e, pela manhã, encerrava seu expediente. Daí começava a chegar mais padeiros, as confeiteiras, as balconistas para trabalharem no período diurno. “Naquele tempo, a gente fazia muito pão. Só eu, veja só, entregava mais de 1.500 pães por dia nas casas, em alguns bares, na Santa Casa. Ah, eu entreguei pão na cidade inteirinha!”

Alguns bairros pelos quais ela passava, ainda estão muito presentes em sua memória: São Lázaro, Santo Antônio, Vila Nossa Senhora de Fátima. “Logo no começo desse bairro, tinha um empório lá, eu vendia o pão para eles. A Vila Nossa Senhora de Fátima era pequena, com poucas casas… São João está muito grande, agora, não é”.

Dona Elza diz que acompanhou o crescimento da cidade e faz três anos que aposentou dessa atividade. “Mas eu não sinto falta. Eu estava muito cansada. E acabei quebrando minhas duas pernas nessas escadas que você passou para chegar aqui”, diz à reportagem. Mas eu cansei mesmo, são 60 anos trabalhando sem parar. É muito pão que eu fiz!”

No entanto, além do pão nosso de cada dia, essa mulher incansável criou outras delícias que são procuradas até hoje: roscas, doces, biscoitão, biscoitinho, salgados diversos. “O povo ainda procura  aquelas roscas que eu fazia e os salgados, aqueles salgadões (referindo-se ao tamanho do quitute)”.

120 ANOS

Sempre com a fé em Deus guiando seus passos, conforme ela mesmo afirma, sua generosidade é reconhecida até hoje. “Modéstia à parte, eu dava lanches para todos esses mendigos que rodeavam a padaria”, revela. Ela conta que eles iam chegando e pedindo ‘Dona Elza, não tem um lanchinho para me dar?’ e que ela não conseguia negar. “Eu também dei muito pão para as Irmãs Carmelitas, para o Lar Meimei, para aquelas entidades que ficam no bairro Santo Antonio… eu nunca neguei”.

Quando a reportagem aponta que a Praça Coronel José Pires está com muitos canteiros em terra seca, ela contradiz e garante que “a Praça está melhor agora”, sem dizer exatamente em qual aspecto. Neste momento, sua memória faz um laço e ela traz à conversa tantos amigos e vizinhos já falecidos. “Todas as pessoas desse largo já morreram”, lamenta. “A última que morreu foi a Dona Mimi Finazzi. Agora, a pessoa mais velha que tem aqui sou eu”, diz isso pousando a mão aberta em seu peito.

Essas perdas significam solidão? “Não, eu sou muito calma com relação a isso”. E conta: “Eu uso marca-passo, mas meu médico do coração me disse um dia desses: ‘a senhora está ótima, vai viver 120 anos’, já pensou!” rindo muito e finalizando a conversa.

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