Dr. Ermelindo mudou para melhor a Medicina em São João

“Eu perdi a conta de quantos pacientes infantis passaram pelo meu consultório”. Quem faz esse anúncio, demonstrando aí um saudável orgulho da profissão que escolheu, é o sanjoanense Dr. Ermelindo Arrigucci. Pai de três filhos, avô de cinco netas, ele formou-se no ano de 1954 e atuou como médico por mais de 50 anos, até aposentar-se.

Um ano depois de formado, segue para São Paulo, onde estagia na Pediatria da Santa Casa. “Lá eu residia, eu morava lá, onde fiquei por um ano e meio”. Uma Pediatria imensa, diz, com professores maravilhosos. Embora também tenha atuado em Ginecologia e Obstetrícia nessa época, decidiu-se por Pediatria: “Eu sempre gostei muito de criança e esse deve ter sido o motivo da minha escolha”.

Embora tenha se dedicado de corpo e alma à Medicina (“Eu trabalhava todos os dias, até 22h, 23h”), hoje, ele também sabe levar a vida. Nesta quinta-feira, foi pescar! “É um ‘vício’ desde a infância. Nós juntávamos um grupo aqui, o Clovis Laranjeiras, o Oswaldinho filho do Dr. Zeca, e íamos andar nas Sete Voltas, andávamos a pé para ir pescar num pequeno córrego lá. Ontem, nós trouxemos um lambarizinho, só. Para distrair” e cai na risada.

DEDICAÇÃO

Dr. Ermelindo diz que a sua volta a São João em meados de 1955, foi muito difícil, profissionalmente falando. A cidade contava, àquela época, com dois profissionais: seu tio David Arrigucci e o Romeu Furlanetto.       “Então, ‘enfrentar’ esse dois ‘monstros’ da Pediatria foi difícil”.

E lembra que recebeu apoio do marido de Dona Beloca, Dr. João Batista Figueiredo Costa, de quem recebeu convite para ser o seu auxiliar cirúrgico na Santa Casa sanjoanense. “Eu nunca fui cirurgião, mas acho que ele quis me ajudar; então, nós operamos muitos anos juntos”.

E relata que, num daqueles dias, ambos entraram no centro cirúrgico às 8h30 e somente saíram de lá por volta das 20h: “Era uma cirurgia atrás da outra e saímos completamente esgotados, nós nem almoçávamos”. O médico conta que Dona Beloca é quem levava um lanchinho para ambos, um suco, alguns pasteizinhos.

INOVADOR

Ele se mostra satisfeito ao acompanhar os tantos avanços da Medicina ao longo dessas décadas. “Antes, era tudo muito difícil de ser feito”. E desvenda um trecho da história da Pediatria aqui em São João. Quando chegou para trabalhar, as crianças na Santa Casa eram internadas num salão, junto com os adultos. “Eu considerei aquilo um absurdo!” desabafa.

“Diante disso, eu pedi ao Dr. Francisco Maríngolo, que era o diretor clínico do hospital, para me liberar uma sala, porque eu queria fazer nela uma Pediatria”. Dr. Maríngolo, então, falou com Dr. Palmiro Ferrante, então provedor da Santa Casa, que cedeu a ele uma pequena sala, “que lotou, e outra que também lotou, e assim foi com quatro salas”.

Foi dessa forma que surgiu uma ala inteira dedicada somente às crianças doentes. Ele foi, de fato, o criador da Pediatria no hospital sanjoanense.  E reputa essa lotação de pequenos pacientes à falta de tratamento de água no município, naquele tempo. “A desidratação era medonha. Era diarreia e vômito sem parar. E a desnutrição também”. Aquela imagem de crianças muito subnutridas que se vê hoje em alguns países, e que passa na televisão, tinha de monta aqui na cidade”.

A Pediatria, conforme ele tinha idealizado e construído, comportava 50 crianças. E a lotação constante ficava em torno 20 a 40 crianças ao mesmo tempo. “Era um trabalho muito difícil de ser realizado, porque a hidratação, aqui em São João, era feita via oral ou subcutânea”. O problema é que, ao inserir o soro por esta via, a barriga da criança inchava muito.

Com seu talento e amor pelos pequenos pacientes que tinha, Dr. Ermelindo implantou na Santa Casa sanjoanense a hidratação venosa, um procedimento médico que não existia aqui. “Era eu quem ‘pegava’ as veias, quem fazia o acesso venoso com aquelas agulhas antigas; e o pior –  eu afiava as pontas dessas agulhas com pedra de barbeiro amolar navalhas!”

O repórter provoca: o que se sente, quando é preciso dar más notícias aos pais de um pequeno paciente? “Esta é a pior coisa da Medicina” afirma, não conseguindo impedir que seus olhos fiquem marejados, revelando que deve ter passado por situações assim algumas vezes na carreira.

E faz uma comparação com os tempos atuais: embora a Medicina tenha avançado muito em inúmeros tratamentos, aponta que a Saúde pública “está péssima!”. Afirma que não vê um bom atendimento ao paciente, sabe da falta de medicação em postos de saúde: “Veja só a situação em que se encontra a nossas Santa Casa…”

 

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