As notícias abaixo são referentes a edição nº 8504 do dia 4/4/2009  
 
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Monsenhor Denizar Coelho considera criação de presídio uma ameaça
Ignácio Garcia Junior

Vários segmentos da sociedade regional, autoridades políticas como o deputado estadual Simão Pedro (PT), prefeitos, vices e vereadores das cidades circunvizinhas a São João se posicionaram contra a instalação do presídio em Aguaí, que continua sendo alvo de inúmeras críticas.
Às vésperas da Semana Santa, O MUNICIPIO procurou saber a posição da Igreja Católica sobre o caso, tendo em vista que a mesma tem abordado na Campanha da Fraternidade deste ano o tema: 'Fraternidade e Segurança Pública'.
Procurado pela reportagem, o bispo diocesano Dom David Pimentel não pôde comentar sobre o assunto, pois se encontra fora da cidade. Contudo, o monsenhor Denizar Coelho, pároco da Catedral de São João, expressa sua posição como sacerdote e cidadão acerca da construção da penitenciária aguaiana.
"Na minha opinião, o Estado deveria ter consultado, convencido e preparado a cidade para receber esse empreendimento, esse Decreto de 'grego'. Não posso afirmar muito, pois não sei como é que está o andamento, mas deveria preparar a população para receber esse pessoal, porque é uma ameaça muito grande. Para a comunidade fica parecendo uma ameaça e cria uma paranoia".
Segundo o monsenhor, normalmente a população é contra porque tem um certo 'medo' do que o presidiário e sua família pode causar para a sociedade. "Mas, nós, como igreja, pensamos o seguinte: o presidiário pode ser um perigo para a sociedade, mas é seu próprio fruto", lembra.
Para ele, o ideal seria que as autoridades maiores consultassem o povo e o convencesse da necessidade de assumir o fato [criação do presídio] e colaborar com a educação dos presos, com o amor. "Porque é o amor que resolve. Porque é 'Fraternidade e Segurança Pública'", reflete.
De acordo com monsenhor Denizar, a Segurança Pública, pela Lei, força e pelo exército, não resolve muito, haja vista, já foi feito muito tempo de trabalho e não houve resultados significativos. "O ser humano precisa é de Deus, de amor e compreensão".
Ainda diz que a Segurança Pública pela força é uma violência gerando violência. "A violência pode vencer, mas não convence. Nós temos que convencer e não vencer. Se eu venço, eu ganho a questão. Agora, se eu convenço, eu ganho a pessoa e a minha questão. Só que este trabalho tem de ser de família e igreja. O Estado não tem muita condição disso".

ESTADO E A CRIMINALIDADE
O monsenhor considera que há uma falta de maior responsabilidade do Estado na ação contra o crime, de conhecimento do assunto e faz um paralelo: "a igreja, que precisa do seu exército (padres, freiras e leigos preparados para o trabalho), há cerca de 400 anos tem o seminário. Se tem um moço que quer ser padre, nós o colocamos no seminário e damos toda a cobertura de formação e amparo para que ele possa enfrentar a nossa 'guerra'. Qual é a nossa 'guerra'? É a do amor em favor do ser humano", explica.
Ele comenta que o Estado, dentro desse paralelo, tem a polícia, que é Segurança Pública. No entanto, segundo Denizar, o policial não tem esse amparo, não tem uma espiritualidade. "Às vezes nós temos o chamado 'capelão' militar. É um para centenas de milhares de policiais ou muito mais", afirma.
O monsenhor argumenta que o Estado teria que criar uma escola muito bem feita e a Igreja - como um todo - poderia colaborar para preparar o policial, "pois ele é gente igual aos outros e enfrenta uma 'dureza' terrível". Inclusive, Denizar comenta que costuma dizer aos policiais o seguinte: "Nós, padres, atendemos o pecador arrependido e vocês trabalham com o pecador sofrido, rebelde, violento. O policial sofre com isso", alega.
Para o pároco, a polícia precisa de amparo e o Estado tem que fornecer isso. Além de trabalho, assistência emocional (psiquiátrica), trabalho espiritual (com padres ou pastores, pois, às vezes, os policiais não são católicos), porque eles não têm preparo para enfrentar uma 'guerra' dessa, que é o aumento da criminalidade.

O ICEBERG
Monsenhor Denizar acredita que um presídio é apenas a 'ponta de um iceberg': "Exatamente isso, porque o problema todo está na família e na Igreja. Quando eu falo Igreja, não digo precisamente a Igreja Católica, mas os pregadores de Deus", justifica.
Conforme pensa, a família forma a pessoa no amor e a Igreja completa o trabalho de amor, verdade e Justiça, pois "sem Justiça não há paz e segurança nenhuma".
"A Segurança que o Estado oferece é paliativa, parcial e temporária, porque a segurança total está dentro do ser humano e, se não houver formação do ser humano, não vai adiante".
Questionado sobre a estrutura [presídio em Aguaí] e se acredita ser viável, monsenhor Denizar foi reticente: "Olha! Há a necessidade, mas não se resolve...".
Ao mesmo tempo, ele crê que o que resolve é o trabalho de evangelização, de educação. "Só que há uma outra coisa quando se fala de educação no Brasil: eles criam escolas, só escolas. Não é garantia. A escola é um desenvolvimento cultural. A escola divina resolveria. É afeto, apoio, carinho, moralidade. Se não tiver uma escola de ética e moral, não forma o homem e o homem sem Deus é uma fera".

RECUPERAÇÃO
Ele alega que até um presídio pode ser criado, mas em torno do mesmo, deve haver todo um trabalho apostólico, religioso, com pessoas que têm terapia e espiritualidade, para confortar os detentos, incluindo trabalho para os presos. "Só assim para convencer à população que os detentos não são a escória, porque o presidiário e, as vezes, a família, se sentem uma escória, um resto. E, não são", afirma.
Conforme percebe, é uma questão muito complexa, pois necessita de um trabalho longo e cita, por exemplo, as fazendas de recuperação do Frei Hans, em Taubaté - SP. "Isso seria o ideal. Ao invés de presídio, uma fazenda de recuperação. Essa ideia é o caso para que a pessoa se sinta assistida, feliz, e não a escória da humanidade", pois, para o monsenhor, o presídio por si só não resolve nada e é apenas uma tentativa de solução.
Ele insiste que poderia ser também um centro de ressocialização voltado para a humanização e se utiliza de uma expressão de Pio XII: "Transformar o selvagem em humano e o humano em indivíduo". Com isso, alerta que transformação um dia vai ter que haver, pois do contrário, não funciona, e é enfático em seus dizeres: "presídio, não resolve mesmo".