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São João :: 2017-04-19 -11:13:00

São João preserva única ‘imagem’ de Tiradentes, diz historiador


            Imagem que está no armário seria a de Tiradentes
Os 30 anos de fundação do Museu de Arte Sacra da Diocese de São João da Boa Vista, completados em janeiro deste ano, revelam uma possível grande descoberta para a história brasileira: em seu acervo encontra-se um rico e magnífico armário do século 18, destinado a guardar enxoval de noiva. Tal peça representa o tradicional dote, em casamento com um alferes da milícia mineira. 
Após longa pesquisa, suspeitas e coincidências, riscos e desvios, o arquiteto historiador e curador do Museu, Antonio Carlos Lorette, chegou muito próximo da atribuição do destinatário deste móvel: o inconfidente Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes.
No momento, Lorette está organizando o texto completo, para publicação em revista de circulação nacional, onde trata dos pormenores da pesquisa e descrição artística da peça. Segundo contou ao O MUNICIPIO, seu primeiro contato com o móvel foi durante sua infância, nas festas de São Pedro ocorridas na Fazenda Cachoeira. “Eu ficava encantado com a antiguidade e perfeição de suas pinturas, iluminadas pelas frestas das janelas fechadas da sede”, diz.
Depois, o móvel era muito comentado pela então diretora do Museu Histórico e Pedagógico, Lucila Martarelo Astolpho, que dizia de suas propriedades estilísticas holandesas (da Companhia das Índias Ocidentais). 
Já estudante de Arquitetura e Urbanismo, Lorette voltou a ter contato com o móvel em 1987, devido à fundação do Museu de Arte Sacra, lembrando que a Fazenda, com todos seus pertences, fora doada como patrimônio à Diocese de São João da Boa Vista por Dona Tita de Oliveira.
Os móveis remanescentes da propriedade foram utilizados como suporte ou vitrines das peças sacras e o armário foi levado como relíquia mais preciosa da Cúria Diocesana. Na ocasião, o diretor do museu local, o engenheiro João Batista Merlin, enviando algumas peças da Fazenda ao Museu Histórico Nacional, do Rio de Janeiro, como empréstimo permanente, sugeriu em troca a restauração do móvel, ficando lá por mais de ano. 
“Após limpeza, prospecção de repinturas na lateral, encontrando ramagens de rosa, a equipe se concentrou na restauração das almofadas frontais, onde estavam retratados dois casais, com três personagens com rostos e corações totalmente riscados com faca. Em nossa ingenuidade, pensávamos em vandalismo infantil, na época dos retiros realizados na Fazenda desde os anos 60, apesar dos pontos serem muito específicos e ter preservado intacto apenas o soldado romano. Depois, conferimos com os familiares de Dona Tita que os riscados estavam presentes há muito tempo”, explicou Lorette.
A desconfiança da importância veio com a recusa de retorno do móvel pela equipe de restaurados do Rio de Janeiro. Merlin, então, comunicou o fato a Lorette, perguntando se poderia deixar o móvel no acervo do Museu Histórico Nacional, pois argumentaram que “uma peça desta qualidade não poderia estar numa simples cidade interiorana paulista e, sim, num Museu Nacional”. 
Encarando como uma observação infeliz e preconceituosa dos técnicos, Lorette pediu para que Merlin providenciasse o retorno imediato do móvel, interrompendo sua restauração.
Após o falecimento precoce de Merlin (1991), o Museu acabou ganhando espaço próprio no térreo do Palácio Diocesano e o armário passou por proteções e pequenas restaurações. “Só então, eu pude me debruçar na pesquisa de sua origem”, conta Lorette.
 
A importância
O historiador afirma que o móvel é incomum para guarda de enxoval de noivas, por sua proporção e temática das pinturas: “na parte inferior, um casal contemporâneo, cuja noiva segurava um coração e o noivo vestido como alferes da milícia mineira; nas duas almofadas superiores, novamente a noiva em vestido longo e penteado alto, também com coração na mão esquerda, e o noivo vestido de soldado romano, com coroa de flores simbolizando o casamento, cena própria do Arcadismo do século 18 das Minas Gerais do período colonial”.
Lorette diz que a vestimenta de alferes foi a chave do mistério, no momento de retroceder à origem: “Dona Tita de Oliveira trouxe o móvel da Fazenda Capivari, Caldas, no início do século 20, a qual pertenceu a sua avó materna, Ignez Higina Pio da Silva. A sede da Fazenda Capivari, demolida por volta de 1952, foi construída por volta de 1790, por Manoel Inácio Franco (2º), filho de Manoel Inácio Franco e Maria Rosa de Sousa, casado com Ana Inácia de Jesus, e vendida pelos herdeiros, em 1839, a Joaquim Pio da Silva, esposo de Ignez”.
Uma das versões tradicionais da família Franco, revela Lorette, para vinda de São João del Rey a Caldas, é o suposto parentesco de Ana Inácia de Jesus Xavier, filha de Manoel Inácio Xavier e Doroteia Maria da Conceição, sobrinhos do alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. Estavam fugindo, portanto, da devassa aos bens de sua família.
O armário vai constar no inventário de Manoel Inácio Franco (2º), falecido em 18 de junho de 1826, entre os móveis utilitários e como “novo”, devido ao seu estado e qualidade mais do que pela sua antiguidade, e acaba permanecendo na fazenda até a venda da propriedade.
“A vertente da pesquisa coincide com a história pessoal de Tiradentes. Apesar de morrer solteiro, aos 40 anos, ele deixou descendência -- uma filha de nome Joaquina, de sua união com Antonia Maria do Espírito Santo. Quando Maria engravidou, tinha 16 ou 17 anos de idade, e ele 40. O namoro deve ter durado de 1786 a 1787. O alferes assumiu a paternidade, prometendo casar com Antonia, como revelou ao colega de Regimento, soldado Ventura Mendes Barreto. A filha foi batizada em 1786, em Vila Rica, onde construiu uma casa para a futura família. Porém, como viajava muito, descobriu que Antonia não ‘procedera bem’ na sua ausência e por isso rompeu o compromisso de casamento”, detalha o historiador. 
O armário foi, então, encomendado para esta pretensa união em Tiradentes-MG (antiga São José del Rey), pois os estilemas das pinturas levam a autoria do pintor alferes Manoel Victor de Jesus, o mesmo que decorou todos os edifícios mais importantes desta vila e que, provavelmente, era amigo muito próximo de Tiradentes.
Após sua trágica condenação, o móvel ficou com a família na Fazenda do Pombal, riscando-se os rostos para não identificação dos personagens. “Das poucas informações iconográficas, o que podemos dele retirar é o uniforme de alferes, com algumas diferenças na interpretação do artista Wash Rodrigues, pelos cabelos negros, diferenciando-se do soldado romano, e o rosto liso, sem barbas e nem bigodes. Além disso, que era um senhor de posses e de conhecimento livre, próprio da cultura iluminista e do Arcadismo”.
 
So Joo